Segunda-feira, Março 19, 2007

PIERRE BOULEZ



Álvaro Teixeira - Tomei algumas notas... falar consigo é falar com a história e o seu protagonista...
(risos)
...
Hoje de novo Bartok... e de novo muitos problemas de ritmo...

Pierre Boulez - Sim. Existem problemas porque Bartok é difícil.
...
AT - Sim. Mas esta orquestra (Wiener Philharmoniker) é para muitos a melhor do mundo...

PB - Mas existem sempre problemas de ritmo não importa com que orquestra entre as melhores do mundo. Mesmo com os melhores solistas do mundo podem acontecer problemas, quando a música é difícil e quando não é tocada frequentemente.
...
Eu penso que enquanto a questão rítimica não estiver resolvida a música não adquire clareza. Sobretudo em dois compositores a questão rítmica é fundamental: Bartok e Stravinsky.

AT - Sabia que ia falar em Stravinsky...

PB - Claro que sim. Eles introduziram um vocabulário rítmico e uma maneira de falar, na medida em que nos referimos ao ritmo, diferentes da tradição. Sobretudo da tradição austro-alemã, onde não se encontram este género de ritmos.
...

AT - Lembro-me que gravou "La Mer" com uma orquestra americana...

PB - Cleveland...

AT - E esse registo continua a ser uma referência...

PB - Sim.

AT - Mesmo depois de outros chefes-de-orquestra famosos a terem feito, a sua continua, para mim, a ser a grande referência. E isso devido exatamente a aspectos dinâmicos e de ritmo...

PB - O rubato... A liberdade com o texto não é uma liberdade gratuíta mas uma liberdade concebida com base no texto.
...
AT - Por outro lado, e isto é recente, fez uma genial gravação da segunda do Mahler com esta orquestra (Wiener Philharmoniker).
...
Retrospectivamente, o que é que Pierre Boulez, o grande chefe-de-orquestra, pensa de Pierre Boulez, no passado, como compositor?

PB - A carreira de chefe-de-orquestra "comeu" o meu tempo. Aconteceu o mesmo quando administrei instituições, quando fui o director musical quer na BBC, quer em New York...
...
AT - O que pensa da música contemporânea de hoje?

PB - Está muito viva e variada.
...
Aqueles que me imitam não são seguramente muito interessantes. Aqueles que me imitam literalmente...
...
Não se podem fazer muitas previsões.
...

AT - Aquele periodo da história da música, o serialismo e o pos-serialismo, foi um periodo importante?

PB - Foi um periodo pelo qual foi necessário passar antes de encontrar outras coisas. Foi um periodo disciplinar.
...
É necessário encontrar encontrar uma liberdade de expressão com um vocabulário que seja não somente lógico, mas sobretudo coerente.

AT – Conte-nos lá a história de quando o presidente da república o foi buscar à América…

PB – Não, não…

AT – É o que se conta…

PB - O que se passou é que o presidente, que era Pampidou, me disse “nós gostaríamos que voltasse para França. Está a fazer tudo isso no estrangeiro, porque não aqui?”. Foi assim que me incluiu no projecto do centro cultural que agora tem o seu nome.

AT- Ofereceu-lhe condições extraordinárias…

PB – Ele disse-me: “estou a fazer isto. Interessa-lhe?”. E eu respondi: “sim, interessa-me.” Muito simplesmente. Ele não criou aquilo para mim. O IRCAM sim, fui eu quem deu a indicação, posteriormente.
...
Acabamos aqui. Tenho um concerto esta noite…

(risos)


Entrevista original


Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

Yefim Bronfmann

Alvaro Teixeira: Há muitos anos estive em um ensaio com o Ensemble Intercontemporain onde você tocou dirigido por Boulez...

Yefim Bronfmann: Não me parece porque é a primeira vez que trabalho com Pierre Boulez...

AT Então nunca tocou com o Boulez...

YB É a primeira vez.

AT Hum...

YB Desejo voltar a tocar, no futuro.

AT Que sentimento experimentou ao tocar com esta... interessante orquestra*?

YB É como se estivesse a fazer música de câmera, está a ver? É uma sensação única tocar com estes fantásticos músicos. Tocar Mozart com eles é especial por estes músicos escutam-se uns aos outros, tal como acontece na música de câmera. O piano, aqui, é parte de um mesmo corpo.

AT Isso aconteceu hoje, neste ensaio?

YB Sim. Absolutamente. Acontece sempre com esta orquestra e em todos os concertos. Todos este artistas estão comprometidos com a unidade da interpretação.

AT Como é Boulez a fazer Mozart?

YB É um músico fantástico, compreende?

AT Em Mozart?

YB Bem. O som desta orquestra é fantástico e...

AT Ela poderia tocar Mozar sem condutor...

YB Qualquer orquestra o pode fazer, mas com um grande condutor como Boulez a orquestra sente-se mais inspirada, e você sabe muito bem que esta orquestra tem um respeito imenso por Pierre Boulez. Tocam ainda melhor com ele e desejam tocar com ele.

AT Eu sei. Você faz música contemporânea com regularidade?

YB Tenho muitos planos nessa área. A próxima semana farei a "premiére" do concerto para piano e orquestra de Esa-Pekka Salonen, que o dedicou a mim. Irei interpretá-lo com a New York Philharmonic.

AT Onde vive habitualmente?

YB Em New York.

AT É dos EUA?

YB Sou do Uzbequistão.

AT Quem foram os seus professores?

YB Arie Vardi, Rudolf Serkin e León Fleisher.

AT Serkin! Um dos maiores pianistas de sempre.

YB Ha sim! Um grande pianista! Um grande músico!

AT Não sabia que ele dava aulas regularmente.

YB Sim. Ensinou muitos anos. Foi director do Malboro Music Festival onde fui três verões tocar música de câmera.

AT Porque gosta tanto da música germânica?

YB Porque é um grande repertório.

AT Mas Mozart não é alemão. Mozart é Austríaco.

YB É verdade. E então?

AT Não é música germânica.

YB É grande música. Pertence a esta grande área que podemos designar de tradição germânica.

AT Quais são, para si, as principais diferenças entre as orquestra europeias e as americanas?

YB Há grandes orquestras na América e há grandes orquestras na Europa. Aqui toca-se de maneira diferente. As cordas... Os sopros. Especialmente os sopros... As trompas... Tocam diferentemente... Mas sabe, é sempre um grande prazer tocar com uma grande orquestra, seja aqui, seja em qualquer outro lugar.

AT E foi um prazer conversar com o Yefim .

YB Igualmente. Muito obrigado.



* Wiener Philharmoniker





Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Christopher Hogwood

Se nos pedissem para indicar um nome significativo da interpretação do periodo clássico, a probabilidade desse nome ser Christopher Hogwood seria muito elevada. O histórico músico veio a Portugal, ao Porto, à Casa da Música, dirigir a Orquestra de Câmera de Basel, num programa com obras de Prokofiev e uma sinfonia de Haydn. Foi aí que, durante o intervalo do concerto, conversamos com ele.

Álvaro Teixeira Lembra-se da integral das sinfonias de Mozart que gravou há muitos anos atrás?

Christopher Hogwood Foi a primeira integral com instrumentos da época e foi muito completa. Gravamos as diferentes versões que existem dos movimentos de algumas sinfonias. As pessoas ficaram surpreendidas.

AT Neste concerto conduz Prokofiev. Porquê Prokofiev e Haydn?

CH Porque Prokofiev gostava muito de Haydn e uma sinfonia clássica de Haydn é uma muito boa combinação. Eu gosto de misturar obras clássicas com obras do século vinte. Eu faço muitos programas misturando clássicos e antigos com obras neo-clássicas. Haydn e Prokofiev, Haydn e Stravinsky, Haendel e Hindemith, Telemann e Martinu, e outras combinações.

AT Nunca interpretou música contemporânea? Só neo-clássicos como aqueles?

CH Eu já dirigi estreias mundiais de obras contemporâneas. Por exemplo de John Woolrich. Mas também dirigi obras de Schnittke, Ligetti, Pendereki...

AT Alguns directores começaram pela música antiga e depois foram avançando até aos contemporâneos. Muito poucos. A maioria fica nos românticos...

CH Quando era estudante toquei muita música contemporânea. Por isso para mim não é novo interpretar repertório contemporâneo. Actualmente eu faço poucos concertos utilizando instrumentos históricos.

AT Porquê?

CH Não há muitas orquestras que utilizem instrumentos históricos e grande parte das que utilizam não necessitam de conductor.

AT Mas dirigiu as sinfonias de Mozart...

CH A partir do cravo...

AT É verdade! E Jaap Schroder era o primeiro-violino.

CH Exatamente.

AT Dirige regularmente esta orquestra (Kammerorchestra Basel)?

CH Sim. Em trabalhos que também incluem registos. Já gravamos cerca de seis cd's.

AT Vive no Reino Unido?

CH Sim. Sou professor em Cambridge e aí vivo.

AT A Academy of Ancient Music continua a existir?

CH Sim, claro. Agora mesmo estão a tocar na Holanda, se não estou em erro. Tocam muito. Mas eu já não faço parte.

AT Mas não é o director-artístico?!

CH Não. O novo director é Richard Egarr.

AT O cravista?!

CH Sim. É o novo director desde Setembro.

AT Antes era Manze, Andrew Manze, violinista, mas o nome do Christopher Hogwood aparecia sempre como o director-artístico.

CH Fui director quando Manze era o konzertmeister. Agora Richard Egarr é o novo director.

AT Isto é novidade para mim... Bem... Dirige orquestras sinfónicas?

CH Sim. E também dirijo frequentemente óperas. Em Paris, no Scalla...

AT Que ópera fez no Scalla?

CH Dido e Eneas, de Purcel.

AT Mas isso é música antiga. Modernas, fez alguma?

CH O Rake's Progress de Stravinsky. Também trabalho regularmente com o Tonhalle de Zurich.

AT O que pensa da actual situação musical na Europa?

CH Para responder a essa questão seria necessária uma semana, mas suponho que cada país necessita de mais suportes financeiros. Por todo o lado existem problemas relacionados com isto. Em muitos países existem problemas com o ensino da música. Não sei qual é a situação em Portugal... Em Espanha é mau. Em Itália não é melhor... Ensinar bem ás crianças sai caro mas é necessário.

AT Mas no Reino Unido o governo não dá muito dinheiro para as orquestras. São mais os sponsors... E parece funcionar bem...

CH Cada orquestra gasta grande parte do seu tempo a arranjar sponsors. Tempo que deveria ser melhor aproveitado. É uma pena... Depois as pessoas não sabem o que isso significa. Pensam que são os sponsors que devem escolher os programas, coisa que não pode acontecer nunca. Os sponsors têm de ouvir a música que os artistas desejam tocar. Ser sponsor não significa poder escolher o programa. A orientação de uma orquestra não pode ser mudada pelo desejo dos sponsors.

AT Mas, por exemplo, se olharmos para as orquestras francesas... O estado dá-lhes muito dinheiro e elas continuam menos boas que aquilo que se esperaria...

(risos)

CH Mas o governo britânico também dá muito dinheiro ás óperas. Para suportar uma casa de ópera é necessários muito dinheiro e em Londres são duas casas de ópera. Londres tem cinco orquestras sinfónicas. É muito para uma cidade! Em França é diferente porque é um grande país e as orquestras estão melhor distribuídas.

AT Em Londres as óperas estão sempre cheias...

CH Estão cheias mas continuam a necessitar de sponsors! As pessoas não fazem ideia do dinheiro que é necessário para fazer funcionar uma casa de ópera. Não imaginam que o bilhete que compram não paga os custos.

AT Deve-se continuar a gastar dinheiro com a ópera?

CH Sim. Eu gosto de dirigir óperas. Há óperas modernas muito boas. Por vezes são produções estranhas mas cheias de imaginação. A produção de opera contemporânea está muito activa. Assim como a dança. Os jovens gostam e vão muito frequentemente. A ópera é mais popular entre o jovens que a música sinfónica.

AT Não é uma pena que nesta casa não se possa encenar uma ópera?

CH Não há uma ópera em Portugal?

AT Sim... Mas nesta casa onde estamos agora não é possível encenar óperas. Não há nem lugar para a orquestra nem espaço para a cena. Não é uma pena?

CH Mas há uma casa de ópera em Portugal ou não?

AT Há, mas no Porto não.

CH No Porto não há uma casa de ópera?

AT Não.

CH Eu concordo! Deveria haver uma casa de ópera no Porto. Aí está um novo projecto.

(risos)

AT Eu creio que a segunda parte do concerto está prestes a começar e eu vou terminar a nossa entrevista dizendo-lhe que foi um grande prazer conversar com uma figura tão relevante para a música e a arte como o Christopher Hogwood. E espero que volte brevemente aqui, à Casa da Música.

CH Aqui existe uma boa orquestra sinfónica, suponho.

AT Sim. A Orquestra Nacional do Porto. É a melhor orquestra portuguesa.

CH Em algumas revistas li as programações dessa orquestra e acho que têm uma visão muito inteligente. Se vir os responsáveis diga-lhes que gostaria de desenvolver alguns trabalhos com a orquestra.

AT Eles irão ler esta entrevista. Suponho que todos se irão sentir honrados e contentes com a vontade do Christopher Hogwood em desenvolver projectos com a ONP. Por isso espero encontrá-lo brevemente de novo aqui.




Anne Teresa de Keersmaeker

Anne Teresa de Keersmaeker não necessita de apresentação. A famosa coreógrafa esteve em Lisboa onde apresentou um trabalho concebido sobre árias de Mozart, no Teatro Municipal de São Luiz.

Álvaro Teixeira Que significa para si trabalhar sobre a música de Amadeus?

Anne Teresa de Keersmaeker É inspirador. A sua música é de tal maneira sublime que é muito especial para mim trabalhar com base nas suas obras.

AT Claro que depende dos intérpretes musicais, mas não corre o risco de ver o seu trabalho, se os intérpretes forem músicos de grande nível, passar para segundo plano?

ATK Não. Eu acredito compreender a música de Mozart e fazer um trabalho que de algum modo a complementa.

AT Anne Teresa: amanhã vamos ter uma orquestra a tocar em instrumentos modernos. Não preferiria que a interpretação fosse feita em instrumentos históricos?

ATK Claro que sim mas a música é tão boa que mesmo com instrumentos modernos vai ser uma excelente performance.

AT Pude ver algumas imagens deste trabalho e penso que foge ao seu estilo habitual. Porque optou por uma estética neo-clássica?

ATK Os figurinos podem ser convencionais mas os movimentos não podem ser classificados como tal.

AT Não estou muito de acordo: o "duo" do bailarino com a cantora, no filme que fizeram para a imprensa, era totalmente neo-clássico...

ATK Bem... de algum modo sim. Foi assim que eu senti e foi essa a minha opção.

AT Dá-lhe prazer trabalhar com música "live"?

ATK Claro. Mas quando se necessita de uma orquestra, como é o caso, torna-se muito caro.

AT Anne Teresa: infelizmente vamos ter de concluir agora devido a um problema com o aparelho que está a gravar a nossa conversa. Foi um prazer falar com uma das criadoras contemporâneas que mais admiro.




Christophe Coin

Christophe Coin ofereceu uma interpretação magnífica do concerto RV 417 de Vivaldi, durante um concerto na Casa da Música (Porto - Portugal) em que dirigiu a EUBO (European Union Baroque Orchestra), num muito interessante programa com obras de Locatelli, Dall' Abaco, Hellendaal e Geminiani. Conversamos com o célebre violoncelista durante o intervalo.

Álvaro Teixeira Todo o mundo conhece Christophe Coin, um grande violoncelista que trabalha especialmente o repertório antigo e clássico, cujas interpretações são incontornáveis, e que está conosco na qualidade de director convidado da EUBO. Christophe: é um prazer recebê-lo aqui no Porto e para mim é um prazer muito grande estar a conversar consigo. Conheço e admiro o seu trabalho desde há muitos anos, nomeadamente com o Quarteto Mosaiques que é uma referência mundial na interpretação, muito particularmente, dos quartetos de Haydn e Beethoven. Foi o Christophe quem escolheu o repertório desta noite?

Christophe Coin Pediram-me para fazer um repertório à volta do barroco italiano e o tema é "Crossing Borders", tratando-se de compositores que deixaram os seus países para trabalharem noutros. Haendel é o grande ausente desta noite, pois também deixou o seu país de origem, mas, por outro lado, trazemos compositores menos conhecidos como Hallendal, um holandês que trabalhou em Inglaterra, entre outros lugares, e que criou muitas obras belas. Trazemos outros mais conhecidos como Locatelli, Geminiani e Vivaldi, sendo o concerto que interpretamos deste compositor uma das suas obras menos conhecidas e muito raramente interpretada. A obra de Locatelli (Il pianto d' Arianna para violino e cordas) é muito interessante, tratando-se de "música programática" à volta "del pianto de Ariana". É, basicamente, um repertório à volta do "concerto grosso" italiano que nos mostra as suas diferentes vertentes.

AT Para mim este repertório é muito mais interessante que se nos trouxesse compositores e obras que ouvimos regularmente. Continua a trabalhar com os Mosaiques?

CC Claro. Brevemente teremos vinte anos de actividade e vamos gravar em Setembro os três quartetos de Arriaga, compositor basco, morto em 1926, celebrando-se o seu centenário este ano pois nasceu em 1906 e teve uma morte prematura aos vinte anos.

AT Portanto interpreta repertório para além do antigo e clássico.

CC Sim. Interpretamos nomeadamente os quartetos de Bartok e Debussy.

AT Com cordas de tripa ou de metal?

CC De tripa. O metal nos instrumentos de cordas é relativamente recente. Os quartetos de Bartok e Debussy foram executados em instrumentos com cordas de tripa quando foram criados. Claro que os arcos são diferentes dos utilizados na música antiga...

AT E de música contemporânea, nunca pensou interpretar nada?

CC Não é a minha especialidade. No entanto vamos provavelmente tocar uma obra de Arvo Part.

AT Brrr... Estamos na Casa da Música do Porto. Um edifício (supostamente) emblemático da arquitectura contemporânea. Que lhe parece a acústica?

CC São necessários alguns arranjos. Penso que serão possiveis.

AT Assim o espero. Para além da EUBO dirige outras formações?

CC Sim. Dirijo o Ensemble Baroque de Limonges e sou convidado regularmente para dirigir repertório clássico e romântico com orquestras convencionais. Como violoncelista sou habitualmente convidado para interpretar muito repertório para além do antigo e do clássico.

AT É um percurso típico partir-se do antigo até, pelo menos, ao final do romantismo? Aconteceu com Harnoucourt de quem foi aluno...

CC Cada artista tem a sua singularidade. A diversidade de interpretações enriquece a possibilidade de se escutarem as mesmas obras sob diferentes leituras. Não me parece que possamos falar em percursos típicos.

AT Christophe Coin: o público espera-o ansiosamente para a segunda parte do concerto. Uma vez mais foi um enorme prazer estar aqui conversando com um artista emblemático como o Christophe.

CC O prazer também foi meu.



Daniel Hope

Daniel Hope, reconhecido violinista com carreira mundial, interpretou o concerto de Schumann, para violino e orquestra, acompanhado pela London Philharmonic Orchestra, em dois concertos que se realizaram no QEH, em Londres. Conversamos com ele no final do concerto de 17 de Maio.

AST Acabou de interpretar um concerto que não é muito tocado... Você gosta desta obra?

Daniel Hope Sim. Gosto muito deste concerto. Mas você tem razão: não é tocado muito frequentemente. É muito dificil para orquestra. E mesmo para o violinista... Mas é uma obra com muito charme, com sonoridades calorosas, com visão, com muita paixão. Em todo caso é Schumann e eu adoro Schumann. Pensei que é uma pena que a obra não seja muito tocada e então procuro sempre uma possibilidade para a interpretar. Mas é muito raro que as orquestras me peçam para a tocar, por isso estou muito contente por estar aqui em Londres e poder fazer este concerto.

AST Nasceu onde?

DH Sou inglês. Nasci na África do Sul mas sou inglês. Actualmente vivo em Amesterdam.

AST Faz muitos concertos na Holanda?

DH Sim, mas sou convidado para tocar em todo o mundo. Toco muito nos Estados Unidos e também na Ásia, no Japão, e em todo o mundo. Estou constantemente a viajar.

AST Também toca música antiga?

DH Sim, muito. Acabei de gravar um novo disco com os concertos de Bach com a Orquestra de Câmara da Europa. Dirigi a orquestra a partir do violino. O registo estará disponivel em Setembro. Também trabalho muito com grupos que utilizam instrumentos antigos como o Concerto Koln e com muitos músicos que fazem música barroca. Adoro trabalhar com eles.

AST Quando faz música barroca utiliza o seu arco habitual ou muda para um barroco?

DH Toquei com um arco barroco e também com cordas de tripa. Também já utilizei um violino barroco mas devo-lhe dizer que prefiro adaptar o meu, que é de 1769 e prefiro então adaptar-lo pondo-lhe cordas de tripa. Toco tanto nele que para mim é dificil mudar de instrumento. Além de que não encontro uma boa razão para mudar de instrumento quando faço música antiga. É verdade que os violinos sofreram transformações, mas 1769 é quase o tempo de Bach e eu adoro a sonoridade do meu violino.

AST Qual é o seu instrumento?

DH É um Galliano. Genaro Galliano de Napoli. Foi o violino de Yehudi Menuhin...

AST Toca com o instrumento do Menuhin?!

DH É um violino que ele usou quando era jovem. Não é o Stradi ou o Guaneri que ele utilizou depois. É um instrumento da infância de Menuhin. Gosto muito deste violino e estou muito contente por ter tido a possibilidade de o adquirir. Espero que a música antiga funcione bem com este tipo de prespectiva.

AST Sente muitas diferenças de ordem técnica quando toca com um arco barroco?

DH Sim. É completamente diferente porque o peso é completamente diferente. Tem de se aprender a tocar com ele, quando se utiliza um arco barroco pela primeira vez.

AST E mesmo a forma de o segurar é completamente diferente...

DH Absolutamente diferente e as técnicas de o utilizar também. Para mim coloca-se sempre como vou utilizar o arco barroco nesta ou naquela obra pois para mim o normal é tocar com um Picazzi, que é um arco de 1850, portanto do tempo de Schumann. É uma coisa totalmente diferente pois os arcos barrocos são muito mais leves. É sempre muito interessante de trabalhar a maneira de encontrar o equilibrio. O som é o resultado do equilibrio entre as duas mãos e, em todos os casos, da maneira como se faz a abordagem das cordas com o arco. Tem de se descobrir a maneira de se exprimir utilizando um arco barroco.

AT Faz música barroca utilizando a técnica barroca, mas eu sei que toca igualmente música contemporânea...

DH É a música do nosso tempo. É a música de hoje! É muito, muito importante, para nós, experimentar e conhecer esta música, porque é o idioma de hoje. Deve-se escutar e viver o nosso tempo. Eu estou muito, muito interessado, em trabalhar com os compositores. Sobretudo os compositores jovens. Pedir-lhes sempre uma pequena peça nova. É muito excitante para mim de ter a possibilidade de estrear novas obras.

AST Faz isso frequentemente?

DH Muito. Encomendo sempre muitas obras aos novos compositores. Além de que existem muitas obras já escritas para o violino.

AST Esta é uma pergunta chata: quais são as orquestras com quem gosta mais de trabalhar?

(risos)

DH São muitas... São muitas... Eu tenho uma página na web onde estão todas as orquestras com quem tenho tocado.

(risos)

AST Foi um prazer.

DH Obrigado, igualmente.




Pierre Strauch

No bar dos artistas um dos meus amigos violoncelistas começa a conversar, em português, com Pierre Strauch, que para além de ser um violoncelista excepcional também é compositor. Pierre tinha acabado de nos oferecer uma genial interpretação de Il ritorno degli snovidenia de Luciano Berio. Olha, disse-lhe eu, queres fazer uma entrevista para o meu blog? Sim, claro. Em português, respondeu Strauch.

Álvaro Teixeira: Isto é uma entrevista que não estava prevista (até rima...), uma entrevista improvisada... mas como todas as outras também o foram...

(risos)

AST: Não há portanto problema algum. Temos aqui ao nosso lado o violoncelista...

Pierre Strauch: Pierre Strauch

AST: Obrigado. Se não estou em erro és o primeiro violoncelista do Ensemble Inter-Contemporain...

Pierre Strauch: Um dos violoncelistas. Lá somos todos primeiros violoncelistas. Não há hierarquia. Não há primeiros e segundos. Somos todos solistas, digamos.

AST: Bom... O Pierre Strauch esteve aqui no Porto, na Casa da Música, num concerto que acabou há exatamente... dez minutos... onde veio executar Il ritorno degli snovidenia , uma obra de Luciano Berio.

Pierre Strauch: Snovidenia. É uma mistura de italiano e russo. Ritorno significa a volta e snovidenia são sonhos. Foi uma obra escrita para o Rostropovich por ser russo e por serem tratadas melodias russas, cantos russos, numa espécie de montagem, genial, com pequenos excertos de cantos revolucionários e históricos russos. Foi uma brincadeira com o Rostropovich porque o Rostropovich fugiu da União Soviética... o Bério tinha muito humor e então fez uma montagem com cantos comunistas e revolucionários para o Rostropovich tocar. Tem uma certa piada... A obra é muito lírica, muito bela.

AST: Estava a pensar nisso mesmo: é uma obra extremamente lírica. Usam-se muito as surdinas, mantendo-se uma certa uniformização tímbrica que é tratada de maneira genial.

Pierre Strauch: Sim. O clima é muito especial. Não há o confronto tradicional entre o solista e a orquestra. É exatamente isso, um clima de sonho... de sonho desperto ou não, não se sabe muito bem. O solista aparece e desaparece, ás vezes a orquestra "come" o solista mas o solista re-aparece, é uma espécie de divagação nocturna, uma coisa do inconsciente. Está feito de uma maneira incrível. É uma obra excepcional.

AST: Gostas especialmente desta obra ?

Pierre Strauch: Eu tive a sorte de tocar esta obra com o Berio... com ele a dirigir a obra. Fizémos uma apresentação em Itália no ano 78, já são muitos anos...

(risos)

Pierre Strauch: Então descobri a obra com ele dirigindo-a. Obviamente é uma experiência forte e interessantíssima. Entretanto toquei esta obra várias vezes e gosto muito desta obra.

AST: É uma pergunta meia chata mas não sem sentido: quais são os teus compositores preferidos na actualidade? Tu que tocas música contemporânea todos os dias?

Pierre Strauch: Há nomes muito importantes como o Lachemann, na Alemanha, o Emmanuel Nunes em Portugal e em França, porque ele vive em França, não é por ele estar aqui hoje mas é um compositor importante, e o Jonathan Harvey, inglês. Há gente mais jovem mas dos pesos-pesados estes são nomes que vêm logo à memória.

AST: Mas na criação musical contemporânea há um fosso grande entre estes que referiste que são todos de uma determinada escola, usando um termo genérico, e os outros todos que são também importantes e históricos. Estou a pensar nos compositores ingleses, outros que não o Harvey, nos polacos, nos da Lituânia... O Ensemble Contemporain é parcial nas escolhas que faz. Dá preferência aos compositores de determinada escola. Priveligia só uma das muitas escolas e estéticas musicais contemporâneas.

Pierre Strauch: Não é bem assim. Agora estão muito mais abertos que antes e tocamos coisas muito variadas. Até minimalistas americanos ou do norte da Europa...

AST: Mas que bem...

Pierre Strauch: Não, realmente o repertório abriu-se muitíssimo nos últimos anos, nos dez últimos anos. Mudou realmente a programação e agora tocamos ... quase tudo, todo o tipo de estilos da música de hoje. Não se pode tocar tudo mas a programação mudou muito e no sentido da abertura.

AST: Eu percebi que em França o Ircam é mal amado e mal visto pelo cidadão comum. Pelo menos por aqueles que sabem que existe e para que serve...

Pierre Strauch: O Ircam também mudou. No princípio confundia-se muito as instituições criadas pelo Pierre Boulez com o próprio Boulez. Agora o Ircam tem uma vida própria e faz projectos no mundo inteiro. Mas agora tem a sua vida própria e tem muita força. Tem um festival importantíssimo onde vão milhares de pessoas todos os anos em Julho. O Ircam integrou-se muito mais na vida de Paris e de França. Essa situação, que talvez existiu, é passada. Agora já não é o mesmo.

AST: Foi um prazer. Gostei muito desta conversa contigo e gostei muito de te escutar a interpretar aquela belíssima obra de Luciano Berio. E também foi muito interessante poder fazer uma entrevista em português.

Pierre Strauch: Também foi um prazer.




Philippe Pierlot

Philippe Pierlot, um histórico na interpretação da chamada música antiga, foi uma figura central da Festa da Música, intitulada A Harmonia das Nações, que aconteceu em Lisboa entre 21 e 23 de Abril. Ofereceu-nos um elevado número de concertos com um amplo repertório, tanto estilística quanto instrumentalmente, e, finalmente, encerrou a "festa" (os concertos dos outros grupos que se seguiram a Dido and Aeneas foram repetições) com o grande ex-líbris deste evento: uma interpretação genial e electrizante de Dido and Aeneas de Henry Purcell. Conversamos com o director-executante no final de um dos concertos que realizou dia 22 de Abril, no qual interpretou, com o Ricercar Consort, obras de Purcell e Lawes.

Álvaro Teixeira Acabamos de o escutar interpretando e dirigindo obras muito antigas...

Philippe Pierlot Toquei um repertório à volta de Henri Purcell, seguramente estre os compositores barrocos dos mais importantes. Ele pertençe a uma época muito muito rica em Inglaterra, particularmente a época elisabeténe e nesta época em Inglaterra há um número absolutamente impressionante de compositores de um nível excelente. Os mais conmhecidos são Bird, que não é um compositor muito conhecido mas que, em meu endender é um dos grandes compositores da história da música, quase ao nível de alguém como Bach, ao nível da ciência e da profundidade da composição. Bird que não tocámos neste concerto...

(risos)

PP Purcell é o herdeiro desta tradição polifónica inglesa, muito pessoal, no sentido destes compositores que posssuem uma verdadeira identidade, ligada, talvez, à insularidade dos ingleses, e voilá, as peças que tocamos hoje, particularmente a fantasia Purcell são ao mesmo tempo o apogeu e o canto do cisne desta tradição porque, despois de Purcell, esta tradição de escrever fantasias para conjuntos de cordas, vai acabar, sendo portanto a apoteose e o fim desta rica escola.

AST Mas estas obras soam a algo extático, não acha?

PP Então...

AST Não se sentem as modulações...

PP Não partilho nada da sua opinião...

(risos)

PP Acho exatamente o contrário...

(risos)

PP Dentro da música barroca, e em particular nas fantasias, Purcell é dos compositores mais audaciosos, ao nível, justamente, da harmonia. Purcell foi muito influênciado pela música italiana. Bom... a música que tocamos neste concerto, é verdade, vem de uma outra tradição. Da tradição da música muito melancólica. É verdade que não é uma música extrovertida. É totalmente o contrário disso. É uma música muito interior. Na obra de Purcell há outro tipo de produções mais influênciadas pela escola italiana porque Purcell gostava muito dos compositores italianos, mas ele apreciava-os não pelo seu aspecto exuberante, mediterrâneo, digamos, mas, pelo contrário, pela profundidade das suas composições. E naquela época em Itália existiam compositores que faziam exatamente investigação no sentido de encontrarem harmonias mais ricas e expressivas. Estamos no lado oposto a figuras muito conhecidas como Vivaldi que é mais exuberante e mais...

AST E quais são esses compositores italianos a quem se está a referir?

PP Na música instrumental um compositor que seguramente influênciou Purcell foi Vitali. Coreli vem mais tarde mas há na escola de Roma gente como Carissimi, Cavalli, há também um compositor menos conhecido chamado Maratolli. São compositores muito audaciosos que fizeram muita investigação. Mais tarde, no século dezoito, há a nascença do classicismo que se vai instalar com as formas bem conhecidas como o concerto e a sonata.

AST Muito bem. Nesta festa da música traz-nos exclusivamente repertório da Inglaterra, não é verdade?

PP Pois. De facto o projecto de La Foule Journé, aqui Festa da Música, deste ano, era à volta da Inglaterra. Quando nos contactaram este era o tema que estava previsto e depois ao longo do tempo foi evoluindo para a Harmonia das Nações, mas nós já tinhamos começado a preparar algumas obras. Por isso também vamos fazer um programa com Núria Rial com Haendel. Também é verdade que no nosso repertório temos sempre imensa música alemã como Bach e os seus ancestres... Mas eu penso que o tema da música inglesa é um tema muito bom e muito interessante pois esta música está entre a mais rica mas é talvez a menos conhecida e, é necessário dizê-lo, a menos acessivel ao público pois como sublinhou, e bem, há muita melancolia e extaticismo nesta música. Não é uma música que dê vontade de balançar-nos enquanto a escutámos. Mas possui uma riqueza que é muito interior e que requer uma certa iniciação para conseguir apreciar toda a sua excelência.

AST Numa certa medida é uma espécie de Harnoncourt dos tempos modernos...

(risos)

AST Pensa "evoluir" para o classicismo, ou não?

PP Em duas semanas partimos para o Japão e lá vamos tocar Haydn e Mozart...

AST Ha!

PP Mas é a excepção para nós...

AST Ho...

PP Bom... Eu toco viola de gamba, por isso o meu repertório é sensivelmente o século dezassete, o século dezoito também... todo este periodo em que a viola de gamba teve uma grande projecção e muito repertório foi escrito para este instrumento. Mas eu toco também o bariton que é um instrumento menos conhecido, parecido com a viola de gamba, mas com cordas simpáticas, e para o qual Haydn escreveu muita coisa. E é verdade que me sinto muito próximo da música de Haydn. Por outro lado, pela primeira vez dirigi o Exultate de Mozart, recentemente.

AST Este é um percurso bem conhecido... músicos que começam pela música muita antiga, passam ao barroco e pouco depois ao clássico. Para já não falar dos que "saltam" para o romãntico... Harnoncourt acabou a dirigir Bruckner...

PP Não penso que esse vá ser o meu caso. Nunca se sabe como a vida vai evoluir... É verdade se me propusessem dirigir uma ópera de Mozart dificilmente recusaria. É uma música da qual me sinto próximo... Mas o meu interesse principal, e penso que vai continuar a sê-lo ainda durante muito tempo, é o século dezassete. Não creio que me vá afastar desse repertório. Penso que aqueles que evoluem para o classicismo e o romatismo é porque, enquanto chefes de orquestra, o classicismo e o romantismo é uma música que dá mais satisfação. Consigo compreender que aqueles que só dirigem sejam atraídos para este repertório. A música de Vivaldi, por exemplo, é um domínio em que um chefe de orquestra pouco pode acrescentar depois das obras serem trabalhadas nos ensaios. Poderiamos dizer que orquestra pode tocar sózinha. Apesar de tudo, quando estou lá á frente dos músicos, posso induzir a certas inflexões no momento do concerto.

ASTMas você toca, dirigindo simultãneamente o agrupamento.

PP Isso depende das obras e do tamanho do grupo. Quando trabalho com côro ou com uma orquestra com solistas, torna-se necessário estar à frente a dirigir para coordenar todo o conjunto e ser quem mantém a consitência interpretativa. Quando não há um chefe pode ser interessante porque permite maior liberdade de iniciativa aos músicos e dar azo a versões diferentes. Mas existir um chefe que coordene todo o conjunto pode revelar-se importante também.

AST Finalmente é a interpretação do chefe de orquestra que nos interessa... como no classicismo e no romantismo... não concebo uma orquestra tocar as sinfonias de Mahler sem um verdadeiro maestro à frente... é verdade que a Filarmónica de Berlim, depois da morte do Karajan, fazia isso com Beethoven... à moda do Karajan... Não o fazia com Mahler. Evidentemente. Mas nós queremos é a versão, a re-interpretação, de tal ou tal maestro. Se fôr de facto um maestro... Porque se fôr um idiota armado em chefe-de-orquestra mais vale deixar a orquestra tocar sózinha... na verdade a Filarmónica de Berlim, depois do Karajan, tocava sempre igual e os maestros movimentavam os braços, acompanhando-a. Só mesmo directores a sério, grandes artistas com carisma, conseguiram fazê-la tocar como eles desejavam. E não foi fácil...

PP Pois. Diz-se frequentemente que a Filarmónica de Berlim podia tocar o Beethoven, sem maestro, à maneira de Furtwängler ou do Karajan... Mas bom... a verdade é que quando o Furtwangler ou o Karajan estavam lá era seguramente diferente...

AST Pois...

PP Eu sou antes de tudo um instrumentista. Quando dirijo é porque é de facto necessário ir lá para a frente. Também porque desejo dar a minha visão da obra. Há uma ópera de Marin Marais que viu o dia graças à minha iniciativa. Depois do século dezassete não tinha voltado a ser apresentada... Fui eu que a re-escrevi. É sobretudo este tipo de coisas que me interessam enquanto chefe-de-conjunto...

AST Também é um musicólogo...

PP Desde sempre um dos aspectos que me atrai nesta música é a vertente da descoberta. Daí o nome do nosso grupo Ricercar. É o estado de espírito de estar sempre em investigação, quer do repertório, quer da maneira de o interpretar. É apaixonante porque percebemos que há uma quantidade impressionante de obras ainda por descobrir, por vezes de obras maiores de compositores a re-descobrir. Mesmo ao nível da interpretação de obras mais conhecidas, e nós dedicamo-nos neste momento a trabalhar algumas criações de Bach, ainda há muito para pesquizar, por exemplo ao nível da gestão das forças instrumentais e vocais, ao utilizar um grande orgão de igreja, por exemplo... nós acabamos de fazer um registo utilizando um grande orgão, não um orgão positivo como habitualmente se faz em concerto e também nos discos, decidimos fazer este registo com um verdadeiro orgão, um grande instrumento, como Bach o fazia na sua época. Isto parece um detalhe mas é este género de coisa que pode influênciar enormemente uma interpretação. Isto foi só um exemplo para lhe explicar que na música do passado, de cujas raízes estamos já muito afastados, há ainda muitas práticaa e hábitos a re-descobrir e esta é a vertente mais rica e apaixonante para quem trabalha e interpreta este género de música.

AST Uma resposta de um minuto para acabarmos: o que pensa da produção musical contemporânea?

PP Eu evoluí num meio musical onde a música contemporânea era muito importante. Nasci em Liége na Bélgica, onde o director do conservatório na época em que eu o frequentei era Henri Pousseur...

AST E Boesmans...

PP Exato. O Philippe Boesmans nasceu na minha cidade. Mas o Pousseur, que não é uma figura muito conhecida como compositor, fazia parte do círculo de Stockausen, Bério, Cage e no conservatório quando fiz os meus estudos escutei a interpretação de todas as obras de todos esses compositores que vinham regularmente ao conservatório para falarem sobre elas e orientarem a sua criação. Foi uma música na qual cresci e o nosso grupo encomenda muito regularmente obras a jovens compositores para serem executadas nos nossos instrumentos antigos.

AST Philippe Pierlot: muito obrigado por esta conversa densa e rica. Estarei lá para escutá-lo nos concertos que se seguem.




Philippe Jaroussky

Depois do concerto número 66 da Festa da Música, realizado no grande auditório do CCB em Lisboa, hoje, domingo 23, com a casa repleta de um público entusiasta que obrigou o famoso contra-tenor, Philippe Jaroussky (acompanhado pelo Ensemble Matheus), a fazer um encore, no final deste concerto, dizia, conversámos com o artista.

Álvaro Teixeira Esteve a fazer um programa inteiro com música de Vivaldi. O que significa este compositor para si?

Philippe Jaroussky Vivaldi é um dos compositores que marcou muito o início da minha carreira. Cantei muito Vivaldi, também fiz uma integral das suas óperas...

AST Para qual etiqueta?

PJ Para naïve mas fiz também para Dinâmique. Vivaldi fez parte das minhas primeiras experiências em cena e continuo a cantá-lo muito. Foi o meu encontro com o Ensemble Matheus que tornou esta experiência vivaldiana ainda mais importante grupo com o qual tenho imensos projectos e vamos gravar em disco este programa que apresentamos neste concerto. Faremos o registo este Verão.

AST Qual é o vosso repertório para além de Vivaldi?

PJ Faço muito o repertório italiano, como Porpora. Também faço Haendel e muitos compositores. Também canto repertório mais antigo, do "seisciento", como Monteverdi, Cavalli e todos esses grandes compositores. Trabalho muito esses dois séculos de música italiana mas também me debruço muito sobre o repertório dos "castrati". O que não me impede de, de tempos em tempos, fazer outro tipo de música como "la mélodie française", por exemplo, Debussy, Fauré, gosto muito, então, de tempos em tempos, faço concertos...

AST Mas eles não escreveram para contra-tenor...

PJ Mas escreveram para voz!

AST Mas por outro lado na música contemporânea há muita coisa para contra-tenor...

PJ Já estrei duas peças.

AST Quais?

PJ ...ssier que escreveu uma grande cantata para contra-tenor e orquestra e outra de Nicola Braci. E há outros projectos...

AST Tem novos projectos?

PJ Não posso revelar ainda.

(risos)

AST Também não ia perguntar...

(risos)

AST Então tem prazer em cantar música contemporânea?

PJ Muito mesmo porque finalmente na música barroca faz-se muita pesquiza, a aproximação que fazemos é de re-criação. Na música contemporânea há um estado de espírito muito próximo do mundo barroco, de pesquiza, além de que estamos a criar coisas novas e é muito bom estarmos a cantar algo que foi escrito para nós, especialmente para a nossa voz. É que passamos o tempo a adaptar a nossa voz ás obras que cantamos, obras que foram à época, escritas para determinados cantores muito particulares.

AST Isso acontece frequentemente?

PJ Sim, sim...

AST Sente isso sobretudo com que compositores?

PJ Todos praticamente pois eles utilizavam os "castrati" e as particularidades de cada "castrati", particularidades muito individuais, o que nos leva a ter de adaptar permanentemente a nossa voz a obras que foram escritas para "castrati" determinados. Nós temos de ser muito mais camaleões...

AST Sente-se o Andreas Scholl dos tempos actuais?

PJ Quê? Não sei , não sei. Sei que as pessoas são muito tocadas pela música de Vivaldi, que a música de Vivaldi lhe fala de maneira muito directa. Mesmo ás pessoas que não conhecem Vivaldi anteriormente.

AST Uma música fácil, então...

PJ Fácil em que sentido?

AST Fácil de se gostar...

PJ Sim.

AST E tem luminosidade.

PJ Voilá! Penso que é uma música boa para um cantor... Por exemplo é o meu primeiro concerto em Portugal...

AST Que foi um estrondoso sucesso...

PJ Sim, parece...

(risos)

PJ Foi muito agradável. A verdade é que o público reagiu com entusiasmo desde a primeira ária o que foi para mim uma grande libertação e fez-me sentir bem ao longo de todo o concerto. Trata-se uma grande sala que estava cheia...

AST Vivaldi faz sempre sucesso, creio...

PJ Sim. É um grande embaixador para os cantores.

AST Quer dizer qualquer coisa especial?

PJ Espero voltar porque infelizmente não tive tempo para visitar Portugal. Espero portanto voltar.

AST Vem de onde?

PJ De perto de Paris.

AST Mas o seu nome...

PJ É de origem russa.

AST País de grande cantores e grandes músicos...

PJ Estive em Moscovo há três dias atrás...

AST Continua portanto a ter relações com a Rússia!

PJ Foi a primeira vez que lá fui.

AST Ha bom. Posso saber quem foram os seus professores?

PJ Nicolle Falien. Desde há dez anos. Nunca mudei de professora. Dá aulas particulares em casa dela, em Paris.

AST Para acabar quero dizer-lhe que espero que volte brevemente a Portugal, de preferência com outro repertório. Talvez com obras contemporâneas... Podemos esperar que um dia a Festa da Música seja com obras contemporâneas...

PJ Com todo o prazer! De toda a maneira o próximo ano não será barroco e não penso que venha.

AST Então talvez daqui a dois anos.

PJ Espero que sim.

AST Eu também. Foi um prazer conversar consigo.




Skip Sempé

Interpretou Couperin, Marais e Telemann na Festa da Música, que decorreu de 21 a 23 de Abril, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. No final conversámos com Skip Sempé, um dos cravistas mais interessantes e solicitados da actualidade.

Álvaro Teixeira: Acabou de tocar algumas peças de cravo de Couperin e pareceu-me que tem uma particular inspiração para este compositor.

Skip Sempé: Tenho sempre inspiração para tocar a música francesa porque é um nosso repertório de predilecção depois de tantos anos toco o Marais, o Rameau, o Couperin. É um repertório ao qual estou particularmente ligado e ao qual dediquei muito trabalho, muitos concertos e muitos discos.

AST Regista para que etiqueta?

SS Temos a nossa própria etiqueta. Chama-se Paradiso. Mas antes gravamos para Harmonia Mundi, Astré e Alpha.

AST Gosta de fazer este génro de recital, acompnhado por outros músicos que ora tocam em conjunto, ora se apresentam como solistas? Eu, como público, gosto muito pois é mais variado.

SS Gosto de tocar como solista mas gosto também de fazer música de câmera. Ser solista a tempo inteiro nem sempre é muito interessante.

AST Prefere o repertório françês ou o repertório mais tradicional, como Bach, por exemplo?

SS Há poucas coisas que não gosto mas não sou grande fã de Haendel e Vivaldi. Gosto de Bach mas também da música francesa, de Scarlatti, Telemann mas também gosto muito da música renascentista, tanto ao nível de grupo como na situação de solista. Sobretudo do repertório que foi negligênciado ao longo de décadas.

ASTPor exemplo?

SS A música de dança do século XVII assim como a ópera de cãmera desse mesmo século, tudo isso é um repertório que não é verdadeiramente conhecido. O público adora a descoberta desse género de obras.

AST Então o classicismo não está no seu âmbito...

SS Não é a minha música. Há colegas, muitos, que fazem esse repertório, assim como a música romântica. Nós estamos mesmo na via da música da renascença e do barroco, com os instrumentos em que essa música era tocada.

AST Há muitos cravistas que tocam Haydn, por exemplo. E Mozart...

SS Sim mas eu prefiro fazer a música da renascença que tocar o repertório clássico. Prefiro fazer a música do século dezasseis que a música criada entre 1750 e 1830.

AST Ok. Nota uma grande diferença, enquanto intérprete, entre a música do norte, Holanda por exemplo, e a do sul? Vivaldi, etc. Diferenças ao nível da essência... e da forma...

SS Essa diferença sempre existiu entre os países que têm muito sol e aqueles onde há muita neve, frio e céu cinzento. Mas creio que nos séculos XVII, XVIII e mesmo no século XIX as estéticas foram bastante mais partilhadas que anteriormente. O violino italiano ganhou muita influência em toda a Europa, assim como o bel-canto com Haendel em Londres e Bach em Dresden. De facto a música barroca teve origem em Itália. E esta estética de fazer tudo pleno de luminosidade ganhou muitos adeptos na Europa do Norte e me Inglaterra também.

AST E a música francesa está no meio?

SS É uma música que se aproxima dos países latinos porque os franceses têm a tendência de impulssionar e tornar visível a sua costela latina. Mas a frança não é, de todo, um país latino. Mas na estética musical a França procura este lado ensolarado de criar música, sendo mais país ensolarado que nórdico.

AST Nasceu nos Estados Unidos... Costuma fazer muitos concertos lá?

SS: Não, não. Estudei lá, na Universidade e no conservatório, mas a maior parte do nosso trabalho é feito cá na Europa. E foi cá que gravamos todos os nossos discos. Mas há um público nos Eua muito fiel à música antiga, nomeadamente em São Francisco, em New York, em Chicago, Houston, etc. Mas de facto, a capital da música antiga das Américas, tanto do norte quanto do sul, é Montreal. Há mais música antiga em Montreal que em todos os outros países da América.

AST Há diferenças entre o público europeu e o americano?

SS Não. Os públicos da Europa são muito diferentes entre si. Diferentes segundo o concerto, o lugar do concerto, a atmosfera do concerto... Há o público do domingo depois do almoço, o público do sábado à noite, o público da ópera... Há o público jovem e o público dos habitués... O público num concerto numa grande catedral reage de maneira diferente do público numa pequena sala que assiste a um recital de cravo.

AST Acha o público português demasiado indisciplinado? Tocou, com insistência, um telemóvel enquanto tocavam...

SS Não é escandaloso. Não se pode procurar um novo público e esperar que esse novo público possua demasiada disciplina. Eu gosto doa artistas que estão descontraídos durante a actuação. Por isso se o público está descontraído creio que pode ser uma experiência bonita...

AST Em Nantes também acontece isto dos telemóveis?

SS Pode-se encontrar um público indisciplinado na Alemanha do Norte e um público com uma disciplina extraordinária em Palermo. Não se podem fazer generalizações. Felizmente!




Martin André

Martin André, o maestro britânico que dirigiu a Orquestra Nacional do Porto num programa "grandioso", apresentado na Casa da Música, no Porto, onde constou, nomeadamente, a 11ª Sinfonia de Shostakovich. Foi hoje, dia 17. Conversámos com ele exatamente antes do início concerto. O maestro esperava-nos com as partituras abertas, repletas de sublinhados e anotações.

Álvaro Teixeira: Trabalhou muito essas partituras?

Martin André: Conhece esta Carmen (o maestro refere-se à Suite Carmen, de Rodion Shchedrin, apresentada na primeira parte do concerto)?

AST: Essa partitura não é a do Shostakovich...

Martin André: Não é aquela! Esta é a da primeira parte. Eu escolhi isto porque ele foi aluno do Shostakovich. Está a foto dele na partitura. É este!

AST: Pode dizer o nome dele por favor?

Martin André: Shchedrin. É russo como Shostakovich. E era um bom amigo dele. Escolhi a sua peça porque tem muito humor, está bem orquestrada e é também uma homenagem a Bizet. Um pouco o contrário desta sinfonia (11ª de Shostakovich), que é muito grande, muito severa, é como a história da revolução... A peça que escolhi para a primeira parte é o oposto. A boa comédia... São duas obras diferentes e interessantes. Você fica para o concerto?

AST: Só para a primeira parte...

Martin André: É uma pena. Tem outra coisa para fazer?

AST: Não. Parto para Vila Real que é para lá das montanhas.

Martin André: Sei muito bem onde fica. Vive lá?

AST: Não. Mas como estou aqui perto e os meu pais estão lá...

Martin André: Também gosto muito de Lisboa.

AST: Mas o Porto tem uma magia especial. Talvez um pouco escuro...

Martin André: Não! Não! É muito belo. Eu e a minha família gostamos muito de estar cá. As pessoas...

AST: Sim, sim! As pessoas cá no Porto são muito simpáticas. Também gosto muito delas.

Martin André: Gosto muito da cidade, das pessoas e dos músicos: são muito concentrados no seu trabalho.

AST: No seu entender a ONP tem um grande nível?

Martin André: Sim tem. Muito especialmente a possibilidade de o elevar. Isso depende dos programas, dos chefes de orquestra e todas as outras coisas...

AST: Que coisas?

Martin André: As coisas políticas, mas quando eu estou aqui sómente por uma semana, nós fazemos estritamente e sómente música. Nós esquecemos esse género de coisas e trabalhamos totalmente na música. É muito bom e muito saudável!

AST: Acha que em Portugal há demasiada política a atrapalhar a criatividade?

Martin André: Sim! Porquê? É sempre assim?

AST: É uma pergunta?

Martin André: Sim.

AST: Não sei. Interessa-me pouco. Cada vez menos.

Martin André: Você vive cá... mas para mim é uma pena...

AST: Pois...

Martin André: Há sempre política em todos os lugares. É normal...

AST: Acha que em Portugal existem mais interferências e bloqueios que nos outros países?

Martin André: Penso que sim. É pena porque vocês têm bons músicos, têm uma grande casa como esta (Casa da Música), em Lisboa vocês têm várias salas boas como a do Teatro São Carlos e as do Centro Cultural de Belém, que vos permitem fazer coisas boas, não sómente de música mas também na dança, no ballet, na ópera, no teatro, no jazz, etc, mas... a política de cá... isso não consigo compreender.

AST: Acha que os políticos portugueses são mediocres?

Martin André: Não. Não posso afirmar isso porque é perigoso.

(risos)

Martin André: Mas é uma pena! A energia é muito positiva mas de tempos a tempo passa-se algo mau que estraga tudo. Mas a vida continua e temos que manter um espírito positivo.

AST: Costuma vir aqui regularmente trabalhar com esta orquestra?

Martin André: Temos de facto uma relação muito estreita. Somos amigos, profissionais e continuaremos esta colaboração. Estou muito contente por trabalhar com esta orquestra.

AST: Portanto pensa que esta orquestra tem potencialidades para ser ainda melhor. Uma orquestra de grande nível.

Martin André: Sim. Sim. No futuro. A sala é nova...

AST: E com uma acústica horrível...

Martin André: Tem que se alterar isso. O tecto não está bem. Tem de ser melhor trabalhado.

AST: E os materiais utilizados em toda a sala?

Martin André: Também, também...

AST: E a forma rectangular da sala?

Martin André: Isso depende onde está sentado. No meio ouve-se bem. Mais ao fundo não é lá muito bom...

AST: E chama-se a isso uma sala de concertos? Cuja audição varia de lugar para lugar? Uma boa sala tem de permitir uma boa audição em todos os lugares.

Martin André: Sim, sim. Isso é verdade. É necessário falar-se ao nível da direcção, pensar-se e ver o que se pode fazer para melhorar um pouco a acústica.

AST: Eu penso que é necessário optimizar-se a acústica. Se é que é realístico face áquilo que se construiu...

Martin André: É necessário fazer-se qualquer coisa. Futuramente...

(risos)

AST: O que significa para si Shostakovich? Que por acaso é um compositor cuja obra conheço bem...

Martin André: Hã sim?

AST: Olhe: já escuto os Borodin a tocarem os quartetos de Shostakovich há cerca de vinte anos! Por exemplo... Acha que Shostkovich tem a envergadura de um Mozart?

Martin André: Hum... É difícil de responder. Tempos diferentes, países diferentes... Mas... ele escreveu quinze sinfonias...

AST: Quinze quartetos de cordas...

Martin André: Exacto. E eu creio que por exemplo esta sinfonia (11ª) é uma grande história da revolução. Depois há as sinfonias 7, 8, que são contra as regras vingentes... Ele viveu a sua vida no século vinte e a sua música vem do coração, sendo uma música para todo o público e não sómente para intelectuais. Ele cria diferentes energias, repare: esta (11ª) começa com "largo" e "pianissimo" com as surdinas. No final o som, as dinâmicas, são incrivelmente fortes. Muito interessante. Para tocar e para escutar: isso é o que me agrada muito. A sua música não é só para os músicos mas para os músicos e para o público.

AST: Eu penso que o nível da criação de Shostakovich é desigual. Tem obras extraordinárias e outras que nem por isso. Que lhe parece?

Martin André: Hum...

AST: Isto passa-se com todos os compositores. Até com um Beethoven... Mas com Shostakovich parece-me demasiado notório. Ele tem sinfonias geniais e outras que foram menos conseguidas.

Martin André: Não estou muito de acordo. A primeira por exemplo... ele era muito jovem quando a escreveu...

AST: Mas essa é excelente!

Martin André: Exatamente!

AST: E a segunda é fantástica.

Martin André: Para mim essa não é tão importante.

AST: Talvez porque seja mais experimental... Mas muitíssimo bem escrita! Aí Shostakovich foi inovador e levou logo com as críticas do partido comunista. A partir daí abandonou radicalmente o estilo que iniciou com a segunda sinfonia. O que não o livrou de críticas futuras...

Martin André: Sim, sim. É verdade!

AST: Para aquela época a segunda sinfonia foi absolutamente inovadora. E aí os comunistas, os dirigentes, encarregaram-se de pôr-lhe um freio...

Martin André: Na verdade para responder com um conhecimento muito aprofundado à sua questão teria de ter dirigido todas as sinfonias dele e isso não aconteceu ainda. O que lhe posso dizer é que não há uma única sinfonia de Shostakovich que eu não queira fazer. Quero dirigir todas as quinze.




Uri Caine

No final do concerto de uma das aprsentações em Lisboa conversamos com Uri Caine resultando o que se segue

Álvaro Teixeira: Creio que tem uma fixação por Mahler...

Uri Caine: Eu gosto de tocar a sua música. Gosto mesmo muito. Antes tocava com um grupo grande. Hoje toco a solo e é outro sentimento.

AST: No princípio do recital de hoje por duas vezes voltou a temas mahlerianos. A sua admiração por Mahler é grande?

Uri Caine: Claro. Estudei a sua música durante muito tempo. Gosto muito da música da Europa Central. Muitas pessoas consideram a música de Mahler como a base máxima de inspiração que um músico de jazz pode encontrar mas existem muitas maneiras de a interpretar. O próprio Mahler interpretou as suas obras de maneiras diferentes.

AST: Antes de tudo é um músico de jazz ou um músico de fusão?

Uri Caine: Sou um músico de jazz. Eu improviso inspirado em Mahler, no drum in bass, nas músicas populares... Em muitas coisas e em muitas maneiras de estruturar a improvisação.

AST: Enquanto improvisa tem uma preocupação estrutural?

Uri Caine: As músicas têm estruturas. Muitas músicas têm uma estrutura aberta. Os standards de jazz têm diferentes fórmulas de improvisação. Temos estruturas mas estruturas diferentes.

AST: Quando há pouco estava a improvisar sobre o tema de Diabelli introduziu repentinamente um tema da nona de Beethoven. Pareceu-me um pouco forçado...

Uri Caine: Eu fiz o arranjo das Diabelli para orquestra...

AST: Eu sei...

Uri Caine: Diabelli foi um editor italiano que desafiou alguns compositores a trabalharem sobre um tema seu. Beethoven criou algo de forma bastante sarcástrica bem patente nalgumas das variações. Tal acontece também nas minhas variações.

AST: Mas no trabalho com o Concerto Köln fez o mesmo. Creio que foi na quinta variação, já não me lembro, que introduziu o tema da quinta (sinfonia). E aí fê-lo de maneira mais conseguida e desenvolveu de forma mais interessante. Está de acordo comigo?

Uri Caine: Talvez. Não sei. Sabe que é um risco. Por vezes não corre tão bem.

AST: Que pensa da música contemporânea... "erudita"?

Uri Caine: Há muitos estilos de música contemporânea. Desde Boulez até Stockausen...

AST: Esse vem cá para a semana...

Uri Caine: Ok!
(risos)
Uri Caine: Mas também há a música electrónica. Diferentes formas de dance music. Há os desenvolvimentos de um Frank Zappa ou de um Jimmy Hendrix... De uma maneira geral interesso-me muito pela música contemporânea.

AST: Por vezes parece existir um fosso entre o público e os compositores contemporâneos... Que lhe parece?

Uri Caine: É verdade, por vezes. Mas não é um grande problema. Sempre houve uma "gaffe" entre os criadores e o público. Para mim não é um problema fazer concertos muitas vezes inteiramente dentro de uma estética contemporânea. Não é um problema ter muito ou pouco público nesses concertos. Os músicos devem poder desenvolver a sua criatividade no sentido que lhes parece correcto.

AST: Mas no seu caso existe uma excelente relação com o público...

Uri Caine: Ás vezes... Tento fazer o melhor. Mas se não funcionar... Eu penso que a melhor forma de fazer música é desejar fazer o melhor.

AST: Será que o facto de vir do jazz lhe traz um público mais alargado que o público "normal" da música contemporânea?

Uri Caine: Não estou certo disso. Há um público que só gosta de jazz e que não considera que o que eu faço seja jazz. Também se pode passar o mesmo com o público da música contemporânea...

AST: Ok. Muito obrigado.




Sabine Meyer

No final do concerto que Sabine Meyer concretizou no âmbito do Festival de Sintra conversámos com a artista. Uma pequena conversa pois alguns fãs esperavam-na.

Álvaro Teixeira: Quais os seus compositores contemporâneos preferidos?

Sabine Meyer: Vivos?

AT: Sim.

SM: Muitos escreveram para mim. O último foi Manfred Trojan que me dedicou um concerto muito bonito. Castiglioni, um compositor italiano. Escreveu uma peça para o meu grupo de sopros. E outros compositores alemães. Pedrem, que é muito famoso na Alemanha, escreveu-me uma peça solo. Muitos compositores. Bons compositores. Wüthrich...

AT: ?

SM: Não conhece?! É muito conhecido na Alemanha. Escreveu uma peça para dois clarinetes. Para mim e para o meu irmão.

(risos)

AT: Porque acha que o clarinete é muito utilizado na música contemporânea?

SM: O clarinete oferece muitas possibilidades técnicas e sonoras, oferecendo muitas, muitas côres. É muito interessante. A música para clarinete assemelha-se à voz humana. Muitos compositores escrevem para este instrumento.

AT: Nunca pensou em interpretar com instrumentos antigos?

SM: Sim. Já toquei o concerto de Mozart num Clarinete Basset que é o instrumento original. Também toquei com o Quartour Mosaiques.

AT: Christophe Coin...

SM: Exatamente! Utilizei um clarinete da época. E toquei o Brahms com um clarinete Wuestefeld...

AT: Já interpretou, por exemplo, compositores franceses?

SM: Compositores franceses?

AT: Nunca tocou música francesa?

SM: Moderna?

AT: Sim.

SM: Não. Até agora não.

(risos)


Tradução em directo de Inês Salpico




Peter Neumann

Peter Neumann esteve na Festa da Música a dirigir o Kölner Kammerchor e o Collegium Cartusianum que foram protagonistas dos melhores momentos desta festa. Como tinha decidido fazer uma só entrevista a escolha só poderia recair sobre este grande músico com o qual me cruzei por acaso num concerto de outro agrupamento.

Álvaro Teixeira: Ouvi-o a primeira vez em Bach. Já não me lembro o quê. Era um cd de uma editora alemã. Fiquei impressionado.

Peter Neumann: Talvez a Paixão Segundo São João...

AT: Exatamente! Gostei muito de facto.

PN: Obrigado. Muito obrigado.

AT: Finalmente encontro-o aqui em Lisboa e ontem escutei dirigidas por si uma maravilhosa, uma genial, leitura da oratória e da missa em dó de Beethoven. Mas... você faz frequentemente os clássicos como Beethoven?

PN: Beethoven não tanto. Fiz a Missa Solemnis, a Missa em Dó e a cantata para o Imperador. Fiz muito Mozart. A integral das missas para a emi.

AT: Prefere as obras com côro e cantores?

PN: Sim. Tenho um côro o Kölner Kammerchor e trabalho muito com eles. Normalmente estou ocupado com este género de repertório mas gostava de fazer mais trabalhos sinfónicos. Também fiz a segunda sinfonia de Beethoven.

AT: E com este grupo com quem tocou a missa e a oratória? Dirige-os frequentemente?

PN: Collegium Cartusianum.

AT: Exatamente. São geniais!

PN: Sim, sim. Normalmente os meus concertos são feitos com eles. Juntam-se nestas ocasiões.

AT: Nunca pensou, por exemplo, fazer a integral das sinfonias de Beethoven?

(risos)

PN: Ainda não, ainda não... Ainda não me solicitaram isso.

AT: É pena porque achei a sua direcção genial. Daquele fabuloso grupo que toca nos instrumentos antigos. Tudo perfeito. Os tempos, as dinâmicas, os ataques... Por isso espanta-me que não o convidem para fazer uma integral das sinfonias de Beethoven.

PN: Já existem muitas integrais dessas sinfonias.

AT: Seria mais uma de grande nível.

PN: Sim. Se me pedirem posso pensar no assunto.

AT: Você faz concertos sobretudo na Alemanha ou por todo o mundo?

PN: Sim. Na Alemanha. Também na Foule Journée em França e na Itália fizémos muitos, muitos concertos. Agora menos. Na Alemanha fiz muito Haendel, muitas oratórias. Gosto muito das oratórias de Haendel.

AT: Eu também. Quais são os seus projectos para o futuro próximo?

PN: Faremos a oratória de Haendel, Débora, em Novembro. Faremos a Paixão segundo São João em St. Peteresbourg e Moscou em dez dias. O próximo ano será um pouco mais calmo. Espero fazer Saúl de Haendel na Festa da Música. Também em Nantes e em Bilbao.

AT: Creio que não é suficientemente conhecido no mercado francês...

PN: Tivémos muito boas críticas em França para os oratórios de Haendel...

AT: Imagino...

PN: Sobretudo na "Réportoire". Gostaria muito de fazer as óperas de Mozart. Isso agradar-me-ia muito.

AT: Na actualidade há uma enorme onda de grupos que se dedicam a tocar nos instrumentos da época, supostamente ao estilo da época. Sobretudo na Europa, nos Eua não sei, mas que pensa desta explosão de músicos que buscam uma suposta autênticidade?

PN: Penso que é uma maneira de dar uma vida nova à música. Creio que é muito bom. No princípio era de cariz mais historicista mas agora há a maneira de tocar, as colorações, fazem-se interpretações modernas, de hoje.

AT: Conheço muitas orquestras alemãs que ouvi aqui e na Alemanha, sobretudo orquestras convencionais. Mas... todas as que ouvi são excelentes. As melhores entre as melhores!

(risos)

AT: Mas é verdade. Nem sequer falo na Berliner Philarmoniker... Há dois anos escutei a Orquestra Sinfónica de Berlim que acabou de falir. Que tem a dizer sobre isto?

PN: Certamente que é uma pena mas creio que vai haver uma mudança na construção e funcionamento das orquestras. Em trinta anos, não sei, haverá mais formações como a nossa que se juntam para um projecto concreto mas os músicos mantêm as suas actividades noutras orquestras, agrupamentos e no ensino. Haverá menos orquestras das cidades pagas pelo governo das cidades. Haverá mais orquestras de "mercado livre", constituídas por free-lancers.

AT: Ha!!! A sua orquestra é privada!

PN: Foi formada para um projecto. Os músicos tocam noutras orquestras.

AT: Acabou de me dizer que esta orquestra que dirigiu não tem um trabalho em permanência!

PN: Não. Não tem.

AT: Incrível!

PN: Sim. Mas tentamos sempre chamar os mesmos músicos para os diversos projectos. Desde que eles estejam disponíveis.

AT: Estou espantado. Eles revelam uma invulgar coesão de conjunto...

PN: Sim. É desta maneira.

AT: Isto é uma questão estranha mas... você ouve música contemporânea? Dos séculos vinte e vinte e um?

PN: Do século vinte escutei em Berlim e em Paris, escutei muitas obras da escola de Viena. Estudei também na classe de Messiaen. Durante um mês. E depois com Maderna e Boulez. Foi em 65/66. Toquei muito Messiaen no orgão também.

AT: Que pensa da construção europeia?

(risos)

AT: Ao nível cultural o que é que espera?

PN: É uma questão demasiado geral...

AT: Ao nível dos intercâmbios. Eu espero que você venha mais vezes a Portugal, por exemplo.

PN: Sim. Isso seria muito bem. Mas existem impostos que nos impedem. Impedem-nos de ir, por exemplo, a Itália onde se tem de pagar 30% de impostos. Muito mais que aquilo que pagamos ne Alemanha. E isto impede-nos de ir.

AT: Talvez uma Europa Federal com leis e impostos uniformes resolva isso...

PN: Pode ser, pode ser...

AT: Esta-me a dizer que em Itália paga 30% de impostos sobre o cachet que lhe pagam e aos músicos...

PN: Sim. Desta forma saímos demasiado caros ou então ganhamos demasiado pouco. Aqui e em Espanha não sei.

AT: Eu também não. De uma maneira geral o que pensa da actualidade musical não sómente ao nível da música antiga mas também ao nível das grandes orquestras românticas. Pensa que actualmente existem formações ainda melhores que há vinte anos?

PN: Sim. Eu penso que o nível técnico é verdadeiramente mais elevado. Mas ao nível da expressividade creio que se perdeu. Por vezes é somente a técnica. Mas também as gravações exigem que os concertos estejam ao nível dos registos.

AT: Acha que esqueci alguma pergunta? Quer dizer algo que ache importante?

PN: Não sei...

(risos)

AT: Gostou de estar nesta Festa?

PN: Muito. Gostei muito. Viémos aqui três vezes a Lisboa, quatro a Nantes e três a Bilbao e é verdadeiramente uma grande festa. Gostei muito.

AT: E para mim foi um grande prazer esta pequena conversa consigo que protagonizou os que foram para mim os melhores momentos desta Festa. Muito obrigado Peter Neumann.





RENÉ JACOBS

Foi à saída de um concerto em Lisboa. Estavamos em amena cavaqueira quando apareceu o músico e a companheira com a qual já tinha conversado momentos antes. Amáveis, simpáticos, com a simplicidade própria dos grandes acercaram-se do nosso grupo que imediatamente os rodeou. Como eles partiriam ao final da manhã (9/10/04) e como teria alguma dificuldade em deslocar-me ao hotel a uma hora viável para fazer uma entrevista...

Álvaro Teixeira: Foi o senhor que deu a conhecer ao mundo La Giudita do português Francisco António de Almeida com o registo que realizou para a Harmonia Mundi.

René Jacobs: É verdade...

AT: Como encontrou as partituras daquele oratório?

RJ: Não me lembro. Vieram-me parar às mãos...

AT: Francisco António de Almeida é um grande compositor?

RJ: Sem dúvida. Melhor do que muitos outros mais tocados... Acho que todas as suas obras deveriam ser apresentadas com regularidade.

Olhe: gostaria muito de fazer essa (referia-se a La Spinalba cujo nome se encontrava à vista numas fotocópias nas mãos de um dos presentes).

AT: Não faz música contemporânea?

RJ: Já cantei mas nunca dirigi.

AT: Porquê? Não gosta?

RJ: Gosto. Não posso é fazer tudo.

(risos)




David Grimal

David Grimal, que é um dos expoentes interessantes do violino na actualidade, interpretou o concerto para violino e orquestra de Erich Korngold, acompanhado por uma patética e mediocre Orquestra Gulbenkian, dirigida por Daniel Nazareth. Do programa fez parte a abertura de Hänsel und Gretel de Engelbert Humperdinck e na segunda parte foi interpretada a terceira sinfonia de Robert Schumann. No final do concerto de quinta-feira, que repetiu sexta, conversámos com David Grimal.


Álvaro Teixeira: Há muitos anos escrevi num diário português que este concerto não passa de um pastiche ultra-romântico. Continuo a pensar exatamente o mesmo...

David Grimal: Eu penso que é uma música muito kitsch. É uma música muito hollywoodesca mas com as raizes vienesas. No parte central do segundo movimento há como uma recordação de Schoenberg. Mas tudo o resto está no modo de fá que será posteriormente, depois Korngold porque foi ele quem começou a escrever no modo de fá, vulgarizado. Agora temos John Williams e outros que escrevem nesse modo, o que é completamente kitsch.

AT: Mas mesmo essa melodia do segundo movimento está muito mas construída. Na minha opinião. Depois existem fortes dissonâncias absolutamente desintegradas do contexto, do discurso musical.

DG: Isso não sei. É bastante naif sobretudo, a melodia do segundo movimento. Eu penso que dentro do género que esta obra representa está é bastante conseguida. Mas... não podemos dizer que é música séria.

AT: Você que acabou de tocar uma peça muito interessante (um extra de Bela Bartók) pouque é que toca uma peça nula como este concerto de Korngold?

(muitos risos)

DG: Nem sempre escolhemos com quem e o que vamos tocar...
Mas isto faz parte da música também. Eu toco muito o concerto de Beethoven, o de Brahms, o de Bartók, o de Berg, ou os de Mozart mas também toco Paganini e Korngold que também fazem parte da vida. Pode-se ter um prazer diferente tocando-os e escutando-os. São coisas diferentes que existem e que eu acho que merecem ser tocadas.

AT: O problema é que para vocês violinistas não há muito repertório... Contráriamente ao piano por exemplo.

DG: Não é verdade. Eu tenho cinquenta peças no repertório e tenho de estudar mais cinquenta. É um repertório enorme. Não sei se toda a minha vida será suficiente para tocar todo o repertório. Pode-se tocar Pendereki, Lutoslawski, Britten, não sei que mais... o concerto de Schoenberg, toda a música francesa, os concertos menos conhecidos de Miklos Rosa...

AT: Rosa?

DG: Rosa é um húngaro que foi para hollywood também. Há muito para tocar e a descobrir. Mas grandes obras? Concertos de Beethoven há só um. Não existem cinco. De Mozart não existem trinta. De Brahms não há dois, não contando com o duplo concerto. Mas há também um concerto de Schumann, um de Elgar, dois concertos de Prokovief, dois concertos de Chostakovitch...

AT: Ao nível da música contemporânea existem muitas obras para violino solo?

DG: Não existem assim tantas. Há muito mais para violoncelo solo, de facto. No século vinte o violoncelo conseguiu um grande destaque porque pessoas como Rostropovitch fizeram muito trabalho com os compositores e os violinistas foram mais preguiçosos. De tal maneira que se para o violoncelo existem muitas obras, para o violino de facto não existe uma verdadeira sucessão para a sonata de Bartók. Eu procurei... Há uma sonata de Zimmermann que no meu entender não tem a mesma qualidade.

AT: Não conheço essa obra mas Zimmermann é um grande compositor.

DG: É um grande compositor mas essa peça para violino não está, na minha opinião, ao nível da sonata de Bartók. Falei de Zimmermann justamente porque é um grande compositor. Trabalhei com muitos compositores que escreveram...

AT: Pascal Dusapin não tem nada para violino sólo?

(silêncio)

AT: Não gosta de Dusapin...

DG: Não sei. Não conheço tudo de Dusapin. Ele escreveu uma pequena peça para violoncelo mas que não é uma coisa séria... Mas isso depende se falamos de coisas sérias ou se falamos de tudo. Fomos muito severos com Kornagold mas na música contemporânea há muito "Korngold" também. E estão vivos!

AT: Bom... eu conheço bem a obra de Dusapin e em meu entender é um muito grande compositor. Mas não conheço essa peça para violoncelo. Mas qual é para você o limite entre a música séria e a não séria?

DG: Para mim não é uma boa pergunta porque não existe música séria e música não séria. Existe sim a maneira séria de abordar a música ou a maneira não séria de o fazer. A maneira não séria não me interessa. Daí que mesmo a música de Korngold para mim também pode ser séria nos limites do "décor" e do seu enquadramento. Mas pode ser trabalha com seriedade também. É isto.

AT: Mas assim temos limites demasiado volúveis... Podemos dizer que o último andamento do concerto de Korngold é absolutamente kitsch. Estivemos de acordo: não é música séria. Não podemos dizer agora, passados poucos minutos, que afinal é música séria.

DG: Mas não é isso. O que pode ser sério é a maneira de a interpretar.

AT: A sua forma de a tocar.

DG: Exatamente. Eu não sou compositor. Não sou compositor, nem crítico, nem professor de reflexão estética. Eu sou simplesmente um intérprete. Quer dizer que devo tocar toda a música. A minha missão é tocar tudo. Mas cada coisa que abordo, abordo-a de acordo com o seu carácter, de acordo com o seu contexto mas com o respeito pelo trabalho do compositor que eu de todas as maneiras não sou capaz de fazer. Depois há a música que eu recuso tocar porque é desonesta. Mas para mim Korngold não é uma música desonesta. É uma música sincera. Kitsch mas sincera.

AT: Pode-me dar um exemplo de música desonesta?

DG: Música desonesta... Sim, vou-lhe dar um exemplo de música desonesta... Existem obras sim... Mas não vou falar delas diante de um microfone. Em frente de uma garrafa de vinho podemos discutir sobre música. Existem mesmo compositores muito respeitáveis e muito sérios... Em Chostakovitch, por exemplo, existem obras desonestas. Para mim. Ele tem obras extraordinárias mas também tem obras em que ele não é sincero. Eu sei que foi por causa do sistema que ele foi obrigado a escrever obras um pouco de propaganda.

AT: São casos particulares...

DG: São casos particulares eu sei mas há obras em Beethoven que são peças de circustância e mal conseguidas. Ele próprio viu isso. Podemos encontrar muitos situações entre os maioires que escreveram música porque foram obrigados. Daí que essa música não funciona. E podemos ao mesmo tempo ver em compositores menores como Korngold, que era no entanto um compositor dotado mas que começou a fazer merdas como este concerto, mas ele fez isto com humor. Daí que eu aceito isto. Eu prefiro isto, onde há apesar de tudo talento, a coisas mais escolares como a Sinfonia Espanhola de Lallo que é mais estúpida. Bem mais estúpida. Há obras de Saint-Sains que também são mais estúpidas.

AT: ...

DG: O Rondó-Caprichoso foi conseguido como peça de circunstância. Não é música séria mas foi bem concebido. Mas o primeiro concerto não o foi.

AT: Você vive em França ou no Estados Unidos?

DG: Eu vivo em Paris!

AT: Como começou a falar inglês... É que existem alguns músicos franceses que foram para os Eua... A Hélène Grimaud foi viver para lá...

DG: É verdade?!

AT: Sim, é. Porque acha que ela foi para lá?

DG: Não sei. Temos de lhe perguntar.

(muitos risos)

AT: Que tem a dizer da música francesa post-Boulez? Crê que agora há mais liberdade estética que quando Boulez controlava tudo?

DG: Não se pode dizer que estamos no post-Boulez porque Boulez é ainda o papa. Mas há bastantes correntes estéticas em França e a linguagem está em vias de se re-definir, já não há uma linguagem homogénea. É muito dificil saber, quando não há continuidade histórica do ponto de vista da linguagem, o que tem valor ou não. É dificil dizer o que é experimental e o que vai ficar porque é uma linguagem que vai ter continuidade. A actualidade, para mim, é um periodo de transição onde se vai encontrar uma continuidade histórica com o passado, seja com a música tonal seja com a música modal , seja com outros caminhos expressivos que em meu entender estão ou na modalidade ou na tonalidade porque em meu entender a música serial ficará sempre em estado experimental.

AT: Você crê que todo o post-serialismo, todas as técnicas de triagem serializadas ficarão sempre em estado experimental?

DG: Penso que a música serial não funciona nas grandes formas. Funciona para as pequenas formas como em Webern. E Berg é música tonal não é música serial. Daí que funciona muito bem, efectivamente. A música serial é muito interessante mas não funciona. Como a Ars Subtilior do XIII século que era a música contrapuntística pura, isto não funciona. Os monges faziam vinte e quatro cânones ao mesmo tempo... isto não funciona. A música tem necessidade de um centro. Isto é muito interessante no papel mas não funciona. Na música serial é o mesmo. Há muitos acontecimentos ao mesmo tempo sem uma continuidade orgânica e uma correlação de tensão e distensão. E a música é isso. A música modal está menos neste registo de tensão/distensão mas é muito descritiva através das colorações. Para mim a linguagem serial na forma da música clássica não funciona.

AT: Muito obrigado.





Artur Pizarro

Logo no final da primeira obra no recital de comemoração dos seus 25 anos de carreira tocou um telemóvel. Artur Pizarro parou e passados segundos recomeçou. Suponho que foi em La vallée des cloches de Miroirs de Ravel. Uma leitura excelente, onde o pianista fazia legattos próprios de um artista inspirado dotado de grande técnica. O piano revelava problemas na parte sobre-aguda...

Mais tarde tocou outro (telemóvel) que ele ignorou talvez para evitar repetir a cena. Ouviam-se barulhos e conversas vindas dos corredores: era o sujeito do telemóvel a atender a chamada e posteriormente a discutir com os funcionários do teatro! Eis-nos perante o Portugal "erudito" real... Porque não foi chamada a polícia para identificar os individuos dos telemóveis a fim do teatro avançar com um processo cível para ser indemnizado (pela péssima imagem que deixou nos presentes) e indemnizar quem pagou bilhetes para um recital que acabou de forma abrupta?!

Já depois do intervalo, a interromper uma genial e meditativa interpretação de Clair de Lune, da Suite Bergamasque de Claude Debussy, tocou outro telemóvel. Foi demais! Artur Pizarro saiu de palco esperando que a pessoa responsável por tal absurdidade se retirasse. Mas alguns tugueses têm uma lata infinita! Não só a pessoa não se retirou como foi reivindicar o dinheiro que pagou pelo bilhete devido ao facto do recital não se ter concretizado como estava previsto!!! É de facto impressionante! É de facto memorável! É de facto de antologia! O portugalito dos galitos de barcelos na sua melhor erudição (esta é a gente supostamente culta que vai a recitais de "música clássica": se este é o público português da "música erudita"... como serão os outros?). Com élites assim portugalito há-de perder o pouco e os poucos que ainda lhe restam de bom e todos hão-de culpar o vizinho e blasfemar contra a incivilidade dos tugueses. Dos quais evidentemente se auto-excluirão. O tuguês é sempre o do lado porque ser tuguês é uma moléstia, e ai de nós se alguém lá fora suspeita que o sejamos: somos automaticamente metidos na categoria dos que fazem bons muros e são bons trabalhadores (enquanto as novas fornadas de portugueses não lhes chegarem, evidentemente...). Felizmente para ele, Pizarro dá-se ao luxo de poder continuar a ser português lá fora, onde sempre viveu reconhecido como um artista de excepção.

Conversamos, entre vários outros comensais indignados (não com a comida, que por acaso era mediocre e cara, mas com o sucedido), à mesa de um restaurante onde tentamos esquecer a suite de Debussy, que ficou incompleta, e a sonata de Rachmaninov que não chegamos a escutar:

Artur Pizarro: Posso falar com a boca cheia?

Álvaro Teixeira: Podes. Depois das premiadas mazurkas do Scriabin

AP: Premiadas onde?

AT: Bom... Receberam três estrelas na Pinguin...

AP: Ha!

AT: Que outros registos tiveste em destaque?

AP: Não tens cassete suficiente para que eu as diga todas.

AT: Não te preocupes. Isto é uma memória digital...

AP: Olha... O penúltimo que foi um dos discos para a Naxos com a integral para piano do Joaquin Rodrigo foi Gramophone Editors Choice de Abril deste ano (ne: também recebeu o Classic FM Best Buy de Março). Um dos meus discos de Vorsichék recebeu o Diapason d'or... Tive vários Choc de la Musique quando gravava para a Collins, quando ainda existia...

AT: Quais?

AP: Já nem me lembro... Mas foram para aí uns três. Também tive três Gramophone Editors Choice para além daquele que já te disse. Pá, tenho uma carreira já longa! Normalmente não ando é com uma lista dos cd's que tive em destaque...

AT: Eu ouvi partes da tua interpretação das últimas sonatas de Beethoven... Pá, tenho dezenas de interpretações dessas sonatas... e devo dizer-te que achei a tua leitura com um nível interpretativo muito, mesmo muito elevado.

AP: Estás a referir-te a que sonatas?

AT: Ás últimas. Achei-as de facto com um nível impressionante. Como as gravaste? Por takes? Por andamentos completos?

AP: Não, não. Gravei três ou quatro completas, depois ouvi-as e fiz retoques. Por vezes o piano desafinava... Depois cose-se para tapar esse género de imperfeições. Ao nível dos takes fi-los o mais longos possivel. Se não fica tudo retalhado e os andamentos não batem certo, o timbre do piano não bate certo, as melodias não batem certo... Portanto tem de se fazer takes o mais longos possivel.

AT: Entretanto tu tens tocado muita música do século vinte. Neo-clássica. Isto é: nós conhecemo-nos para aí há vinte anos mas há quinze anos, para não falar em vinte, tu não tocavas nem pensavas em tocar este género de repertório.

AP: Não tinha tido tempo para a aprender. É óbvio! Aliás a construção do meu repertório foi feita cronológicamente.

AT: Neste momento és dos pianistas que toca mais obras do século vinte.

AP: Olha que não. Ainda ontem toquei Palestrina.

(risos)

AT: Ele disse que ontem tocou Palestrina...

AP: Olha que o repertório do século vinte vai de Rachmaninov, Glazunov e Rimsky-Korsakov até ao... áquele nosso conhecido...

(risos)

AT: E porque falaste nesse?

AP: Como a noite começou mal é para acabar pior...

(risos)

AT: Diz-me uma coisa: quando é que vais tocar os estudos do Ligeti?

AP: Quando o panorama musical português evoluir ou seja

AT: Desculpa! Tu que és um pianista de carreira mundial não podes escudar-te no panorama português.

AP: Não me deixaste acabar. Eu tocarei Ligeti quando o panorama cultural português evoluir ou seja quando as labaredas do inferno congelarem.

AT: A metáfora teve piada mas que eu saiba não fazes Ligeti na Inglaterra onde vives. Porquê?

AP: Porque não é para lá chamado.(risos) Para te dizer em bom português eu gosto mais de stacatto que de legattos.

AT: Ok. Ok. De qualquer das formas...

AP: Como diziam as meninas de Odivelas que não podiam dizer que não gostavam da comida que estava a ser servida, tinham que dizer "eu não aprecio este género de alimento". Será essa a frase que eu posso utilizar. É um género de alimento não necessáriamente apreciado à minha mesa.

AT: Sabes que eu já escutei algo parecido da boca de um pianista que eu sei que não aprecias particularmente? O El-Bacha.

AP: Então... Já marcou pontos no meu livro.

AT: Já ficaste a gostar um bocadinho mais dele...

AP: Do Abdel...

AT: Em relação a Portugal tu que práticamente nunca viveste cá...

AP: Desculpa! Eu só saí de Portugal em 1977 e vivo desde 1968. Mas também é verdade que o Portugal que conheci já não existe.

AT: Desculpa mas tu estudaste nos Eua com o Sequeira Costa e depois de uma curta passagem por lisboa foste para Paris de onde me escreveste a dizer que tudo era trivial naquele país... A começar pelo Cicolini com quem foste estudar... É uma carta histórica. É pena tê-la perdido. Dizias que até a Torre Eifel era trivial... E do Cicolini dizias... Hum... Não me apetece dizer.

AP: Isso mostra que não digo só mal de Portugal.

AT: Demonstra é que quase não viveste em Portugal. Consegues fazer uma análise distânciada deste país?

AP: Consigo. Quanto mais distânciada melhor.

(risos)

AT: Está tudo dito... Ia-te perguntar mais coisas em relação a Portugal mas parece que ficou tudo dito... Diz-me uma coisa: porque é que deixaste de tocar na Gulbenkian?

AP: Mas eu não deixei de tocar na Gulbenkian!

AT: Há anos que não tocas lá...

AP: Dois anos e meio.

AT: Porquê?

AP: Hum... Porque ainda não me convidaram para voltar. Não é a primeira vez...

AT: São eles que não te convidam?

AP: Não sou eu que vou lá pedir para tocar!!!

AT: Evidentemente, mas não te convidam?

AP: Quer dizer... Há muitos pianistas no mundo... terá de haver uma certa escoagem... uns certos intervalos... senão estou lá eu a tocar todos os anos o que também é uma chatice.

AT: Pois. Na Gulbenkian por vezes tenho ouvido péssimos solistas...

AP: (sussurrando) Não fales mal da minha amiga... ela é uma excelente violoncelista e só desafinou cá. Para a semana vou fazer um recital com ela...

AT: Sendo tu um pianista de grande nível com reconhecimento mundial porque é que não te convidam para ires lá mais regularmente?

AP: Não devem ter dinheiro para pagar o meu cachet... Sou muito caro...

AT: Repetindo... Os Diapason's d'or...

AP: São marketing... como o é qualquer prémio.

AT: E os Editors Choise?

AP: É marketing para vender discos inventados pelas revistas que querem vender discos. Portanto é marketing. Para o público que não sabe diferenciar entre um bom disco e um mau disco pensar "ha aquele disco tem a etiqueta xis portanto é aquele disco que eu vou comprar". Da mesma maneira que um actor tem um óscar ou não tem um óscar mas não é o óscar que faz com que o actor seja bom ou não. Tu não vais dizer por exemplo que todos os filmes que o Clint Eastwood escreveu ou dirigiu foram uma merda até ele ter recebido agora este óscar. Que até toda a gente faz troça do óscar por só lhe ter sido atribuído agora. Portanto: não é ele ter o óscar ou não, eu ter o diapason ou não, não é o outro ganhar o gramophon ou não que faz que ele seja bom ou que ele seja mau, que ele tenha carreira ou não tenha carreira.

AT: Concordo inteiramente. Conheces uma pianista que se chama Eliseo Versiladse?

AP: Eliso Virsaladze, conheço.

AT: Que achas dela?

AP: Uma grande senhora, uma grande pianista, tem óptimas interpretações... tem outras que podes gostar ou podes não gostar mas não deixa de ser uma séria artista e uma séria pianista.

AT: Práticamente desconhecida do mercado francês para não falar do ibérico que não tem relevância...

AP: Completamente em desacordo contigo. Toca imenso em França.

AT: Nunca vi nenhuma gravação dela em França... nenhuma etiqueta...

AP: Channel Classics, gravou para... qual é aquela que tem as gravações todas da Natália Gutmann e do Richter... da Eliso Virsaladze são para aí uns sete ou oito discos e estão todos à venda em França. Possivelmente o distribuidor francês não será grande coisa... Mas ouve lá: desde quando é que França é o centro do universo? Pergunto-te eu!

AT: Desde nunca. Hum... desde nunca...

AP: Também te posso dizer nesse caso que a Eliso Virsaladze nunca tocou com a Orquestra Metropolitana de Lisboa portanto não prestará para nada... nem nunca teve o prazer por exemplo de ir tocar com a Orquestra das Beiras...

AT: Existe?

AP: Acho que deixou de existir...

(comentários diversos)

AP: Quando eu comecei a tocar, a ser alguém e a ter carreira nunca tive o prazer de tocar com o Silva Pereira, portanto também não existo. Tá dito!

AT: O Richter disse que a Eliseo Verdiladze...

AP: Vir-sa-la-dze

AT: é a melhor intérprete viva de Schumann... concordas?

AP: ... na opinião dele seria... mas a opinião dele é a opinião dele! Mas sabes quantos pianistas são necessários para mudar uma lâmpada? Onze: um pá mudar e os outros par estarem à volta a dizerem "eu não teria feito bem assim". Portanto a resposta está dada. Portanto um pianista que dá uma boa opinião de outro pianista trás sempre água no bico.

(risos)

AP: Vamos ser honestos né?

AT: Achas que o Richter era especialmente amigo da Eliseo?

AP: Especialmente amiga em que sentido?

AT: Não sei... Para dizer uma coisa dessas...

AP: Que teriam ido para a cama juntos é?

AT: Não. Acho que não. Eu sei... imagino que isso não aconteceu. Não é essa a questão...

AP: Aliás o Richter gostava muito da sua esposa e que não haja confusões.

AT: Como te sentes depois de teres que interromper um concerto devido a toques de telemóveis?

AP: Francamente aliviado.

AT:...

AP: Pude vir jantar mais cedo!

(risos)

AT: Queres dizer mais alguma coisa?

(risos)

AP: Tão a ver como no meio desta coisa toda com o Álvaro...

(risos)

AT: Queres dizer mais alguma coisa? Que aches importante quer do ponto de vista artístico quer... por exemplo o que é que achas do panorama musical internacional em termos de produção de novas obras? Contemporâneas. Eu sei que não conheces muito mas fala do que conheces.

AP: Acho...

AT: Achas que vivemos um tempo de grande criatividade? Ou não conheces?

AP: Quantitativamente... Acho que vivemos um grande periodo de grande actividade quantitativa. Sim. Acho.

AT: Isso tem a haver com questões políticas não? Há minitérios da cultura e...

AP: Não, não, não, não. Acho que realmente se cria muito e há muita coisa nova a sair. Imensa! Uma quantidade brutal de novas composições... de novos compositores, de estreias de obras novas...

AT: Não vou pedir-te para me citares porque tu não vais citar... não conheces... Ou conheces compositores contemporâneos?

AP: Conheço...

AT: Diz lá então.

AP: Olha. Conheço... queres compositores contemporâneos com quem eu tenha trabalhado?

AT: Tu trabalhaste com compositores contemporâneos?!

AP: Finissy, George Benjamin, Hans Werner-Henze

AT: Trabalhaste com o Henze?

AP: trabalhei... com Takemitsu um pouco antes dele morrer, trabalho com o Ned Rorem

AT: Quem é esse?

AP: Ned Rorem. Compositor americano. Não conheces. Este conheço eu e tu não conheces. No entanto tem nnn discos gravados

AT: Na américa...

AP: E viveu em França!

AT: Ha!

(muitos risos)

AT: Os franceses são muito heterógeneos.

(mais risos)

AP: ... que era uma sua tia... chamada Schubert... que morava por cima de uma Stock-Hausen...

(risos)

AT: Olha... e em termos de pianistas... as novas gerações... o que achas que as novas gerações de pianistas que estão na forja... conheces alunos do conservatório de Moscovo? Ouviste tocar alunos desse conservatótio?

AP: Já...já... Olha: ouvi tocar o Richter, ouvi tocar o Gilels, ouvi tocar o Krainner...

AT: Alunos actuais!

AP: Não , não. Normalmente não vou à Rússia... Aliás não sei qual é o fascínio particular do conservatório de Moscovo. Era como por exemplo falar-te dos alunos da Nadia Boulanger que são pelo menos 300.000! Pronto, o conservatório é um edifício bonito. Por acaso tens umas histórias bonitas... Tem uns daqueles elevadores à antiga com as portas em acordeão, etc mas não sei qual é

AT: Achas que o conservatório de Moscovo perdeu qualidades?

AP: Acho é que estudar com um edifício é um bocadinho ridículo.

AT: O edifício tem professores lá...

AP: Tá bem, então diz-me o nome do professor e eu talvez te diga... porque isto de ir estudar para o conservatório de moscovo é... olha eu quero ir para ali estudar para a 112 e não para o 46. E no terceiro andar! Aliás eu nunca fui estudar para conservatório nenhum. Fui estudar com o professor tal ou o pianista tal. Dizer que estudou no conservatório de Moscovo é como dizer que estudou no liceu Maria Amália. Q

AT: Quais foram os professores com quem estudaste?

AP: ...

AT: Para além do Sequeira Costa.

AP: O Sequeira Costa... trabalhei com o Cicollini quatro um cinco lições... trabalhei com o Bruno Rigutto. Também quatro ou cinco lições...

AT: Quem?

AP: Bruno Rigutto. Mora em França, grava em França, toca em França... E em Itália também de vez em quando.

AT: Ele faz música contemporânea...

AP: Não, não. O Bruno Rigutto não.

AT: Mas já fez música contemporânea.

AP: Esse é o Bruno Canino...

(risos)

AP: Tive algumas lições também com o Jorge Moyano... tive algumas lições com o Claúdio Fink, toquei algumas vezes para o Fleisher... mas professor professor a sério só tive o Sequeira Costa.

AT: Quando é que voltas para fazer um recital... (risos) sentes-te com coragem depois de tantos toques de telemóvel, pá?

AP: Voltar aonde? A dar uma recital cá? Em Lisboa?

AT: Sim.

AP: Quando me convidarem. E se não desligarem os telemóveis é um programa curto... (risos) como foi o de hoje.

AT: Se isto se passasse no Barbican terias feito a mesma coisa?

AP: Se se tivesse passado no Barbican teria feito a mesma coisa mas a grande diferença é essa é que isto não se passa no Barbican. Mais a mais o Barbican tem detectotes de telemóveis para o caso de algum turista português, que por acaso saiba o que é o Barbican, queira ir a um concerto. Portanto estão lá. Tanto que nos detectores de metais estão as bandeiras portuguesas e só funcionam com telemóveis portugueses...

AT: Quando tive lá não havia... isso é verdade?

(risos, gargalhadas...)

AT: Acabou a entrevista!

AP: Aconteceu-me uma vez... e estavam várias pessoas portuguesas na plateia... aconteceu-me uma vez no Royal Albert Hall durante um promenade concert com a orquestra de Liverpool com o maestro Libór Pashék

AT: Já ouvi falar muito bem dele...

AP: Apesar de não gostar de dirigir em França mas tudo bem. Ha... (risos)

AT: Nada disso. França nem sequer tem nenhuma das minhas orquestras preferidas. Calma aí!

AP: Mas então tava eu a dizer... no andamento lento ...

AT: Nem maestros!

AP: Estava eu a dizer! No andamento lento do primeiro concerto de Liszt tocou um telemóvel no Royal Albert Hall que leva mais de 5.000 pessoas. Tocou uma vez. Foi apagado. Mas vieram as duas pessoas que pegam nos teus bilhetes e vão com a lanterna levar-te ao sítio... apareceu um de cada lado, isolaram a pessoa, pediram à pessoa para se levantar e a pessoa foi escoltada até à porta da saída. E pronto! Problema resolvido.

AT: É assim mesmo.

AP: Só em Portugal é que eu tenho de parar e dizer "atenda que eu espero um bocadinho". Mas como em portugal vive-se em democracia e cada um faz o que quer... Aliás: vive-se em anarquia que em portugal é tida como democracia porque em portugal a definição é ligeiramente diferente... é eu faço o que quero e escarro para cima de ti e posso ser nafabeto que nem sabem dizer analfabeto... Ha, o problema é ligeiramente diferente... é a estupidificação institucionalizada!





Nelson Freire

Acompanhado pela Orquestra Gulbenkian que, sob direcção de Lawrence Foster, teve uma prestação fraca, como habitualmente, o pianista Nelson Freire ofereceu uma fantástica interpretação do segundo concerto para piano e orquestra de Brahms. No final conversámos com o artista.

Álvaro Teixeira: Sei que teve muitos dos seus registos premiados em França nomeadamente com "diapasons d'or". Qual é a sua relação com o mercado e o público françês?

Nelson Freire: Actualmente sim porque eu estou morando lá. Morando é uma maneira de dizer pois eu considero que moro no Rio de Janeiro, mas quando estou viajando tenho o meu cantinho na França. Então com isso fiquei mais familiarizado com tudo o que respeita ao país, etc. Mas é sempre um grande prazer voltar a Portugal. Tenho muitas boas lembranças aqui. Me sinto muito bem aqui. Lembra um pouco o Brasil da minha infância um Brasil que hoje em dia não existe mas que aqui ainda se conserva e é um grande prazer estar aqui.

AT: Tanto quanto me lembro os últimos diapasons d'or que recebeu foram para registos de Schumman e Chopin...

NF: Exatamente. Foram os últimos dois que fiz mas recentemente fiz outro, um disco Chopin também, que há-de sair nos próximos meses. No final do ano devo fazer o primeiro concerto de Brahms com o Ricardo Chaily e a Orquestra de Leipziz.

AT: Tem portanto uma afinidade muito particular com estes compositores...

NF: Sem dúvida. São compositores que... temos relações desde a minha infância... É como se eu fosse da família.

(risos)

AT: Mas com compositores mais modernos... O Nelson é um pianista da "velha tradição romântica", não é? Aborda muito pouco a música do século vinte...

NF: Do século vinte não! Até que toco bastantes coisas... Muito Villa-Lobos, Prokovief, Bartok. Isso é século vinte mas não se pode dizer mais que é moderno, né?

(risos)

NF: Mas é natural que eu tenha feito uma opção. É difícil fazer tudo, né? Tem também certas coisas que para mim têm interioridade. Questão de afinidade, de gosto... de vontade... É isso.

AT: Tocou muito com a Marta Argerich e foi a partir daí que a sua figura ganhou dimensão mundial. Que recordações tem desse tempo?

NF: Recordações... Nós acabamos de fazer uma tournée no Brasil e na Argentina e daqui a um mês vamos estar a tocar nos estados unidos. Continuamos a tocar... Sei lá. É uma amizade velhíssima e muito profunda. Tocar com a Marta é uma...

AT: É uma grande pianista...

NF: Mais que isso, né?

AT: Mas ela agora praticamente não toca a solo.

NF: Pode ser que volte a tocar. Ela já tocou muito sózinha. É uma questão que ela não gosta de estar sózinha. Nem no palco nem fora dele. É uma opção que eu espero que seja momentânea.

AT: Mas que já dura há alguns anos...

NF: É. Já dura há alguns anos. Mas nada é impossível.

AT: Na Argentina disseram-me que lá ela fez um recital a solo há menos de meia dúzia de anos...

NF: Sei que ela tocou no Japão e também que em Nova York ela fez sózinha metade de um concerto. Tocou Bach, Chopin e Prokovief. Isso foi há três ou quatro anos.

AT: Quais são os chefes de orquestra com quem gosta mais de trabalhar?

NF: Ha tem muitos. Tem vários. Gostei de tocar com este (Lawrence Foster). Há muitos anos fizémos uma tournée juntos. Foi em 69. Era também com o Rudolfo Kempf que era um chefe que eu adorava e é talvez com quem eu tenho as melhores lembranças. Mas essa tournée foi Estados Unidos e no Canadá e tem uma experiência muito engraçada pois foi a primeira vez que eu toquei com orquestra com um piano de armário (parede). Um dos concertos foi nas ilhas Bahamas e lá só tinha um piano branco de armário... O concerto de Liszt imagine você! E foi o Lawrence que dirigiu. Não havia outro piano e acabei tocando.

(risos)

AT: Quando volta a Portugal para fazer um recital a solo?

NF: Olha espero que breve.

AT: Eu também.

(risos)





Emilio Pomàrico

Álvaro Teixeira: Trabalhou com o Celibidache...

Emilio Pomàrico: Estudei com ele em 1980 em Munich no curso de direcção de orquestra e depois com o Franco Ferrara na academia Santa Cecília. Foram os meus principais mestres.

AT: Franco Ferrari...

EP: Franco Ferrara.

AT: Mas é compositor...

EP: Não não. Franco Ferrara foi um dos maiores directores italianos deste século. Ele não é muito conhecido porque era uma pessoa muito doente e quando dirigia era em cadeira no palco. De resto passou a maior parte da sua vida ensinando principalmente na Academia Musical de Siena e depois em Roma na Academia de Santa Cecília. Uma pessoa magnífica que infelizmente já faleceu. Como de resto o Celibidache...

AT: Quais são as suas recordações de Celibidache?

EP: Eu tive a felicidade de o conhecer quando era ainda um miúdo, quando ele trabalhava ainda muito em Itália com a Orquestra Sinfónica da RAI em Milão e ele era amigo de um tio meu clarinetista que era um excelente músico e que foi primeiro clarinete na Orquestra Sinfónica de Buenos Aires durante muitos anos. Eles eram amigos e eu tive oportunidade de conhecêr o Celibidache nesse contexto. As recordações são tantas que não tenho tempo para falar de tudo. Ele era um grande músico. Foi um dos poucos verdadeiros directores de orquestra que não são assim tantas. No aspecto de ensino, que era a faceta menos boa de Celibidache, ele mantinha uma enorme distânciação em relação aos alunos. Mas aprendi muito evidentemente. Celibidache necessitava de manter as distâncias, de estar num plano longínquo em relação aos alunos. Na verdade ele humilhava um pouco os alunos. Esta é a outra faceta do Celibidache que no entanto foi uma grande figura. É necessário estar-se muito atento porque com estas grandes figuras tem de ser o aluno a reter o que melhor lhe pode servir a partir do ensinamento do mestre. Um director de orquestra tem de em primeiro lugar conhecêr-se a si mesmo. Este é o aspecto mais importante. Conhecêr-se musicalmente, psicológicamente, conhecêr a orquestra como conhece a sua própria casa e conhecer as partituras como se fossem escritas por si mesmo. É uma coisa muito importante.

AT: Também a relação com os músicos o é...

EP: Não se é director de orquestra sem orquestra! A orquestra é o nosso instrumento. Eu pesoalmente sinto-me muito afastado do modelo do director que marca os tempos distânciando-se dos músicos. Não pode ser porque só há música quando os músicos estão convictos daquilo que estão a fazer e sobretudo quando se sentem orgulhosos de tê-lo feito. Sem isso não há música: há notas. E hoje em dia ouvem-se muitas notas... Isso não é música.

AT: Uma vez escutei o Celibidache a dirigir Bruckner. A oitava... Mas também tenho uma gravação ao vivo da sétima e os tempos dele no segundo andamento são muito mais lentos que os seus...

EP: Depende, depende... Não há "os tempos". Há a execução! Cada execução tem a sua característica como cada orquestra a tem.

AT: Escutei-o há muitos anos a dirigir uma obra de Emmanuel Nunes cá em Portugal. Costuma dirigir muito música contemporânea?

EP: Metade, metade. Gosto de dirigir música contemporânea porque sou também compositor e é portanto uma linguagem que é a minha e que conheço muito bem. Conheço como pôr as orquestras a tocar bem a música contemporânea e isso é muito importante.

AT: Finalmente: quais são os compositores que mais gosta de dirigir?

EP: Bruckner

AT: Contemporâneos

EP: Há alguns... No geral... considero o Emmanuel Nunes como um dos mais importantes entre os contemporâneos... A sua música é grande música...

AT: Hum...

EP: Mas há tantos, tantos... Há os históricos. Ligeti, Boulez... os italianos... Berio, Donatoni, Casteloni... Há outros mais novos, à volta dos 40 e poucos anos, que gosto muito...

AT: Rhim...

EP: O Wolfgang é um grande amigo, uma grande pessoa que escreve obras verdadeiramente muito belas. A que escutamos hoje é de facto uma peça de grande, de grande...

AT: E Dusapin?

EP: Não conheço muito bem Dusapin. Sou muito amigo de Hugues Dufourt cuja música me dá muito prazer. Também sou amigo de Grisey.

AT: Muito obrigado e até breve.





VALENTIN BERLINSKY

O Quarteto Borodin é conhecido de todos, sendo um dos agrupamentos de câmera mais importantes do século XX. Conversámos com o músico fundador deste quarteto de cordas, que ainda se encontra activo, o violoncelista Valentin Berlinsky.

Álvaro Teixeira: Há muito que ouço o vosso quarteto. Lembro-me de vos escutar no Ateneu Comercial do Porto ou no Palácio da Bolsa, já não me lembro bem. Tocaram quartetos de Chostokovich e a vossa interpretação deixou-me hipnotisado. Desde esses recitais, que foram há mais de dez anos, o Quarteto Borodin conta com novos elementos. O que se alterou na vossa música desde essa época?

Valentin Berlinsky: Chegaram de facto novos membros que trazem todos eles contributos importantes. O fundamental e conseguimos é conservar as tradições que estiveram na origem deste agrupamento há cinquenta anos atrás.

AT: Penso que actualmente o único membro fundador é o senhor.

VB: Sim.

AT: Vocês têm uma relação particular e especial com Chostakovich.

VB: Eramos muito chegados. Tocavamos os quartetos que ele compunha com a sua "bênção". Antes de estrearem tocávamos-los só para ele.

AT: O que o fascina na música dele?

VB: É dificil responder a essa pergunta. Chostakovich é um compositor genial que está ao nível de Beethoven e Mozart. Por isso é tão dificil responder a essa pergunta. Ao mesmo tempo era alguém atento a tudo o que se passava no seu país na época em que viveu.

AT: Consta que o Pravda criticou a música dele. E pela audição pode notar-se uma inflexão estilística na sua obra. Inflexão supostamente relacionada com essa crítica. O Pravda dizia que a música dele não era compreendida pelo povo... O que nos pode dizer sobre isso?

VB: O que o Pravda escrevia nem sempre era verdadeiro. Havia quem queria destruir Chostakovich mas ele manteve-se sempre verdadeiro face a si mesmo. Não se deve prestar atenção a esses artigos dos jornais mas sim à obra que ele compôs.

AT: Que diferença encontra entre a vida musical de hoje na Rússia e aquilo que era há vinte ou trinta anos atrás?

VB: Infelizmente as diferenças não são só na Rússia mas no mundo todo. A Rússia particularmente encontra-se numa situação das mais difíceis desde o pós-guerra. Esperemos que as coisas más sejam superadas.

AT: Mas apesar de tudo músicos de excepção como os elementos deste quarteto continuam a viver lá...

VB: Sim. Tive sempre muitas oportunidades para sair do país mas nunca o fiz.

AT: Muito obrigado. Foi um enorme prazer conversar com o senhor que é um dos músicos que eu mais admiro em todo o mundo.



Tradução em directo por Artem Khmelinskii




Eliso Virsaladze

Álvaro Teixeira: Eu sei que Sviatoslav Richter disse que a senhora é a maior pianista viva na interpretação de Schumann...


Eliso Virsaladze: Ó meu deus! É sempre a mesma coisa...


AT: Eu estive a assistir ao ensaio e achei bastante... Qual era a sua relação com Richter?

(risos)


EV: Era boa.


AT: Como pianista o que acha de Richter?


EV: Essa pergunta não é original. Só um idiota poderá pôr em causa que Richter não foi um dos maiores pianistas do mundo. Um pianista genial e espectacular.


AT: Tanto quanto eu sei na Rússia existia uma clivagem entre os admiradores do Richter e os do Gilels que são os dois dos maiores pianistas de todos os tempos.


EV: Não é nada disso. São dois pianistas muito diferentes e ambos muito bons. Trata-se de uma questão de preferência e de estilo. São ambos grandes pianistas.


AT: Nunca ouvi o Gilels ao vivo. Tive a felicidade de escutar duas vezes o Richter já com oitenta anos. Muito bom. Profundo e genial. Mas tocava um Chopin com muitas notas erradas. Por vezes parecia Debussy... Não será que ele devia ter parado a carreira antes de entrar numa fase em tocava com demasiados erros?


EV: Para começar Chopin não era nem o compositor preferido do Richter nem o que ele melhor interpretava. Mas mesmo os últimos concertos do Richter aos quais assisti foram muitos bons. Só por azar é que lhe pediram para fazer um programa com Chopin. O ter-se enganado não quer dizer nada. Ele foi sempre muito bom.


AT: A escola russa de piano é uma das melhores do mundo. Talvez a melhor. Mas não acha que é um pouco conservadora? Não me lembro de ter escutado pianistas russos a fazerem repertório da segunda metade do século vinte e contemporâneo.


EV: Não é bem verdade. Há muitos pianistas a tocarem repertório da segunda metade do século vinte. O problema é que ainda não há compositores da segunda metade do século vinte tão bons como os anteriores e por isso são menos tocados. Além disso os pianistas que se especializaram nesse repertório são menos conhecidos. Se fossem convidados para tocar nas grandes salas provavelmente ficariam vazias. Não há compositores tão reconhecidos como Stravinsky e Prokofiev. De resto Shostakovitch e Schnitke são mais clássicos que modernos.



AT: Quais são os seus compositores preferidos dentro do repertório para piano?


EV: Não existem compositores preferidos. O repertório para piano é imenso. Essa é uma pergunta para fazer aos violinistas e violoncelistas que têm um repertório muito mais restrito. Não é uma pergunta para fazer aos pianistas que têm um repertório imenso à sua disposição. Prefiro o que toco em cada concerto.


AT: Há pianistas que tocam mais Chopin. Outros preferem Liszt. Outros Schumman...


EV: Eu toco todos.


AT: Para si houve uma grande mudança, em termos do ensino e vida musical, na Rússia pós-Gorbatchov?


EV: Agora está tudo bem. Desde que não queiram transformar o ensino na Rússia à imagem do que se passa aqui, no Ocidente.


AT: Mas acha que o conservatório de Moscovo continua a ser o grande viveiro de músicos e talentos que era há vinte anos atrás?


EV: O conservatório de Moscovo continua a formar músicos talentosos e continua a ser um dos melhores conservatórios do mundo. No geral o mundo é que está pior, não é a instituição em particular que decaíu.


AT: Quais são os chefes de orquestra com quem gostou mais de trabalhar?


EV: Gosto de trabalhar com qualquer um com quem me entenda. Gosto muito de tocar com orquestras por isso desde que haja uma linguagem comum entre mim e o chefe de orquestra tudo bem.


AT: Quais são as gravações que realizou em disco e em cd que aconselharia aos leitores do meu blog? As que prefere e que gostaria que as pessoas escutassem?


EV: Nenhuma. Não me ouço a mim mesma por isso não sei aconselhar os outros a esse respeito.



Entrevista realizada com a gentil colaboração de Artem Khmelinskii




HEINZ HOLLIGER

Heinz Holliger é um oboísta histórico, também compositor, que conviveu com todos os outros históricos que renovaram a música na segunda metade do século XX. Conversamos com ele em Lisboa, quando ali foi apresentar e dirigir um ciclo de criações suas.

Álvaro Teixeira: Bem... Eu ouvi o ensaio e... a parte da voz é serializada?

Heinz Holliger: Quê?!

AT: Na parte vocal utiliza uma série ou não?

HH: Não, não... É bem mais estricto que uma série.

AT: Quê?!

HH: O que você ouviu no fim é um cânon-espelho-retrógrado. Um quadruple cânon.

AT: Hum... E qual é a função do unissono? Há um unissono...

HH: Tudo é simétrico e as partes encontram-se sempre no trítono lá bemol-ré que são sempre unissonos. Pode haver uma sensação de música tonal mas não é de todo tonal.

AT: Mas olhe que na quinta e na sexta-feira o primeiro ciclo de "lieds" que apresentou estava serializado.

HH: Não.

AT: Não?!!!

HH: Eu escrevi muito muito pouco serializado. Por vezes sómente dois, três compassos para conseguir o efeito de uma música muito automática. Por vezes posso utilizar pontualmente técnicas serializadas mas práticamente nunca me servi da técnica de doze sons.

AT: Encontrei grandes diferenças estilísticas entre o seu primeiro ciclo de "Lieds" (canções) e o segundo.

HH: Claro, existem 35 anos de intervalo entre um e outro. O primeiro ciclo é provavelmente o meu op.1

AT: Ha! Portanto serializado!

HH: Não é serializado...

(risos)

AT: Mas olhe que soa a tal.

HH: O primeiro ciclo está mais próximo do expressionismo da segunda escola de Viena. A expressão patente no segundo ciclo pode ser mais natural. O primeiro revela uma forma de cantar muito estática, muito directamente expressiva. No outro ciclo a voz está bem mais integrada apesar que a harmonia é mais complexa. A condução da voz é como na poesia de Trakl, mais simples e mais ritmada dentro do ritmo da linguagem.

AT: Trabalhou muito com o Bério?

HH: Com Bério não. Eramos muito amigos. Ele dedicou-me a sequência para oboé. A sétima.

AT: Então trabalhou com ele. Como músico.

HH: Sim. Fizemos muitos concertos. Mas foi há muito tempo...

AT: E com Luigi Nono?

HH: Nunca. Venho de dirigir o seu Canto Sospeso no festival de Lucerne. Gosto muito mas esta música está muito muito longe da minha maneira de pensar. Mas trabalhei com Boulez que foi meu professor durante cinco anos.

AT: E Stockausen?

HH: Não nunca. Os meus mestres são Haydn, Mozart, Schumann. Não sou práticamente influênciado pelos contemporâneos. No século vinte foram importantes Alban Berg e Bartók mas depois da guerra foi Alois Bernd Zimmermann.

AT: Zimmermann que tem uma ópera fabulosa...

HH: Die Soldaten. A ópera mais complexa que existe no mundo.

AT: Portanto Zimmermann é uma referência.

HH: Sim, eu sinto-me muito próximo dele que é um muito, muito grande compositor. Eu gosto muito da música dele mesmo que não me sinta influênciado por ele. Sinto-me muito mais influênciado pela música do passado.

AT: Na verdade o que constato é que contemporâneos nos seus concertos, só mesmo o senhor... Heinz e os clássicos!

HH: Sim. Eles são os meus contemporâneos. Tenho muito pouco contacto com a produção actual.

AT: Mas esteve em Darmstad...

HH: Só um ano.

AT: Mas como instrumentista...

HH: Sim mas nunca dei cursos nem nunca assisti a cursos. Só mesmo como instrumentista em 60 e 61.

AT: Vejo que trabalha muito com a voz soprano. Bom... com as vozes. Com as vozes.

HH: A voz é uma fonte inesgotável de inspiração e eu estou muito ligado à vocalidade que é uma música corporal, quase biológica. A voz é o mais belo instrumento.

AT: Mas compõe primeiramente a parte da voz e faz a instrumentação depois?

HH: Se se escreve rápidamente anota-se sobretudo a voz e pouca coisa à volta. Ao reler essa parte tudo o que tinhamos imaginado volta como se de uma rememoração se tratasse. No segundo ciclo de Trakl concentrei-me sobretudo na voz. Mas foi escrito num ou dois dias e depois fiz a parte orquestral. Mozart escrevia sómente o primeiro violino e o baixo cifrado. O resto para ele era um trabalho de copista feito a partir da sua memória prodigiosa.

AT: Tirando Bartók e Berg quais são os seus compositores fundamentais?

HH: Eles são os meus guias espirituais pois eu fui educado por Sándor Végh. Sinto-me muito próximo de Bartók que fez uma música muito próxima da linguagem e do corpo, extremamente livre e ritmicamente muito rica. Uma música de facto enraizada no corpo humano e na terra. Não é nada de cerebral.

O outro é Alban Berg que representa o equilibrio ideal entre a sensualidade, a espiritualidade e... talvez o controle extremo... a ideia quase utópica de qualquer coisa construída com tamanha complexidade que ele aproxima-se quase do tao, da anarquia dentro da construção extrema. Aí Berg vai ao extremo búdico de esgotar um material completamente, até ao fim.

AT: O primeiro ciclo de lieds que tocou com a orquestra foi composto há 35 anos?

HH: Há 44 anos. Tinha 20 anos...

AT: Portanto anterior ao Pli selon Pli de Pierre Boulez.

HH: Sim. Nessa altura ainda não trabalhava com Boulez. É muito antes de Boulez.

AT: Ha!!! Muito antes de Boulez!

HH: Boulez tinha começado a escrever as Improvisations sur Mallarmé dois anos antes mas eu não tinha tido qualquer contacto com ele. Nesse tempo não era de todo influênciado por ele. Conhecia muito mal a sua música. Conheci-o em 60 exatamente após ter escrito aquele ciclo e nessa altura escrevi outra obra com poemas de Trakl que mostrei na aula de composição e que ele (Pierre Boulez) dirigiu na versão orquestral. Mas os lieds que refere não têm qualquer influência dele. Talvez tenham sido influênciados pelos op.5 e 6 de Webern e por Alban Berg. Básicamente pela segunda escola de Viena de após a primeira guerra. Pode-se dizer que muito da música contemporânea ressoa na poesia de Trakl que morreu em 1914, justamente durante o primeiro ano de guerra.

AT: O senhor é um grande intérprete, um conhecido oboísta. Crê que isso o conduziu com bastante facilidade à direcção de orquestra?

HH: Talvez... Para mim não é uma grande diferença...

AT: Além disso toca piano...

HH: Mas para mim dirigir é também fazer o que se faz com um instrumento. É uma outra abordagem para para mim a música é uma unidade. Se sou intérprete ou chefe para mim, interiormente não há diferença. É como um equilibrio numa balança as várias actividades em música que para mim é uma só coisa indivisivel.

AT: Isso inclui a composição.

HH: Naturalmente. Isso está talvez no centro de tudo. Eu já escrevia música muito antes de ser conhecido como instrumentista.

AT: Então foi primeiramente compositor e depois intérprete?

HH: Aos dez anos começei a compôr mas nessa altura já tocava oboé e piano.

AT: Aos dez anos.

HH: Sim. E agora foram publicadas algumas das minhas peças que escrevi quando tinha 16, 17 anos. Agora que já sou idoso posso publicar aquilo que me parece ter interesse e personalidade para ser publicado. Coisas bem anteriores a esses ciclos do Trakl que escutou.

AT: Verifiquei que não dá uma impotância particular ao oboé nas suas obras. Um instrumento que conhece bem...

HH: Talvez porque o oboé não tem segredos para mim... Para mim compôr é um trabalho de descoberta. Tento ir ao extremo de cada instrumento do qual me sirvo, de lhe arrancar todos os segredos... O oboé é um instrumento que me inspira muito pouco. Nos anos 60 fiz um grande trio para oboé, viola e harpa que é uma das peças que considero essencial daquele periodo. Depois escrevi também uma espécie de concerto para oboé, côro, orquestra e alto-falantes onde o oboé é como um cantor que canta com o côro e grande orquestra. Depois escrevi peças a que chamei "études" para multifónicos para um volume sobre técnica contemporânea, o estudo para oboé foi criada para ser a peça obrigatória de um concurso em Genéve. Nunca foi música que escrevesse espontâneamente. Foram peças de circunstância. Sinto-me mais próximo dos instrumentos de cordas, do clarinete, da flauta, também da trompa, porque são instrumentos que têm uma escala dinâmica muito mais rica que o oboé que está sempre limitado nos extremos dos pianíssimos e dos fortíssimos. Também está limitado na tessitura. Por isso procuro instrumentos que ultrapassam o meu próprio limite instrumental.

AT: Lembra-se disto(os concertos para oboé de Maderna em cd interpretados pelo próprio Holliger)?

HH: Esse é um compositor que gosto muito. É uma música de uma extrema liberdade. O terceiro concerto, em meu entender, é sómente interpretável por um compositor. Não é uma música para um instrumentista. É preciso saber-se inventar pois a música só está parcialmente escrita. O essencial passa-se na espontaneidade, na improvisação. Para esse registo do terceiro concerto fizemos quatro versões sem qualquer corte. A mais longa tinha 27 minutos e a mais curta 18 minutos. Depois escolhi essa que está no disco. Não tem um só corte porque não se pode refazer a mesma coisa.

Maderna é um compositor que me fascina muito pois tem as mesmas exigências para o ouvido humano, um ouvido absolutamente mágico pois a maneira como ele orquestra... Eu sinto-me muito próximo pois para mim tudo deve ser orientado pelo ouvido, tudo deve ser verdadeiramente controlado pela escuta. Eu escuto tudo numa grande orquestra, mesmo as notas falsas mas isso parece-me que não existe em muitos compositores contemporâneos que perderam a escuta... Eu aprendi isto com Boulez que tem um ouvido miraculoso. Fomos de tal maneira treinados a desenvolver a audição...

AT: Gosta da música dele?

HH: Naturalmente...

AT: Mas ele já não escreve...

HH: Sim. Mas aprendi muito mas essencialmente ao nível técnico. O colocar em partitura, a orquestração... nada ao nível expressivo ou mesmo formal. Aí não fui influênciado por ele mas fui influênciado pelo seu controle acústico de todos os aspectos. Isso foi muito, muito importante.

AT: E como maestro?

HH: Tive algumas lições com ele há 40 anos mas nessa altura não pensava sequer em dirigir. Teve muitos aspectos que me impressionaram. Mas a música que gosto mais como Schumann, Haydn, Mozart é estranha ao universo de Boulez. Em Alban Berg e em toda a música vienesa que interpreta e que é uma música muito emocional, Boulez alcança a emoção pela elegância, pela clareza formal. Não pelo contacto corporal e biológico com essa música.

AT: Quais as orquestras da actualidade que prefere?

HH: Várias. Trabalhei muito com a Orquestra de Câmara da Europa que para mim é a melhor orquestra que existe no mundo. Estão com dificuldade em manter esta orquestra... É lamentável. Nesta orquestra todos os músicos são também grandes solistas e no conjunto é uma orquestra de equipe. Esta orquestra fez todos os discos com Harnoucourt, por exemplo.

AT: Conheço-a muito bem e é de facto o top como orquestra de câmara. Mas disse que vai acabar?!

HH: Não exatamente mas eles fazem muito menos concertos. Estão com problemas financeiros.

AT: Uma orquestra como esta está em dificuldades para continuar?!

HH: Sim. Há muitas coisas boas que estão em dificuldade. O melhor côro do mundo em Stutgard está em vias de acabar por causa dos políticos.

AT: Qual é o côro?

HH: É o Côro da Rádio de Stutgard que é um dos dois melhores côros do mundo na actualidade. Muitas coisas vão mal. As casas de discos estão muito mal. A Phillips morreu e as grandes casas não fazem repertório interessante. Por isso a Orquestra de Câmara da Europa não pode continuar a sobreviver das gravações de cd's. As pequenas editoras não podem pagar muito... Há muitas coisas boas que estão em perigo...

Também trabalho muito com a Orquestra da Rádio de Stutgard... Com ela faço muitos, muitos concertos. Trabalho regularmente com a Orquestra de Baden-Baden. Também com a WDR e com a Orquestra da Rádio Bávara. Existem muito boas orquestras. Na Suiça há uma que é muito, muito boa, a Orquestra da Tohnalle de Zurich.

AT: O Harnoucourt trabalhava muito com essa...

HH: Era com a da ópera que é outra e que também é muito boa.
Mas eu não gosto de distribuir notas pelas orquestras e pelos compositores... O que conta é o que cada um faz. Cada um faz o que pode na música.

A única coisa que conta na arte é a sinceridade. Não fazer "teatro" e "show business"... A arte é qualquer coisa de existêncial. Faz-se arte para sobreviver. Para não se morrer.

AT: Filosofia ou religião?

HH: As duas. A arte é uma coisa tão séria que não se pode deixá-la entregue ao "business".

AT: É bem verdade que mundialmente as grandes casas de discos determinam muito...

HH: As que ainda não acabaram são escravas das multinacionais. Bmg e outras do género são dinosauros que têm a cabeça muito longe do corpo. São empresas que sómente querem fazer dinheiro. Já não têm qualquer relação com as editoras e casas de discos que compraram. Estas multinacionais tanto vendem coca-cola como cd's de música clássica. Para eles é mais um produto que comercializam. É a morte da humanidade. Em 50 anos os jovens não cantarão mais, não conhecerão nada para além do "bum-bum-bum" que estas multinacionais lhes oferecem. A música-máquina feita por robôts...

AT: Mas, por exemplo, nos anos 60 os jovens estavam loucos pelos Beatles e pelos Stones e a música clássica esteve sempre em grande forma e expansão...

HH: Mas esses faziam música! Até o Bério chegou a orquestrar músicas dos Beatles. Mesmo o Jimmy Hendrix fazia música avant-gard. Nada disso tem a haver com a música neandertal feita por gente sem cérebro! Já não há poesia, não há nada. Nessa altura havia grandes poetas. Bob Dillan fazia grande poesia. Actualmente é o agh, aghhh... É a música dos imbecis. Peço desculpa de ofendo alguém mas é a verdade.

AT: Mas na chamada música clássica existem jovens que continuam a compôr...

HH: Por vezes numa via sintética e artificial, mantidos por sponsors mas com grande falha na ligação à história e aos grandes compositores. Se formos ver os estudantes das universidades eles escutam o "bum-bum-bum".

AT: Mas nas escolas superiores de música e nos conservatórios...

HH: Pois. Mas estamos a produzir músicos que depois não terão um público. É triste. Muito triste.

AT: Veremos. Eu espero que isso se altere.

HH: Vemos isto em todo o lado. Na indústria, os directores são gente que não muda. São ratos cinzentos que só pensam no dinheiro, inter-cambiáveis por outros ratos cinzentos parecidos. Já não há personalidades e os políticos são gente sem qualquer cultura. Antes havia gente de grande nível. Claudel era cônsul de França em Buenos-Aires. Neruda era o embaixador do Chile em Paris. E agora são gente...

AT: Sim, estou de acordo que os imbecis estão no poder.

HH: Há um vazio de grandes personalidades. São os maleáveis despersonalizados e desprovidos de côr que funcionam ao nível do poder no registo desta sociedade de loucos e incultos. Encontra-se muito pouco de originalidade, de individuos que possuem uma singularidade.

AT: Vamos esperar que isto mude... Foi um muito, muito grande prazer ter tido esta conversa interessante e inteligente com uma personalidade como o senhor que é um dos meus oboístas de eleição e que fez esta interpretação dos concertos de Maderna que é a minha preferida.





Zahkar Bron

Álvaro Teixeira: Durante dias Lisboa transformou-se num viveiro de talentos, um pouco graças à sua figura. Eu sei que o senhor é um dos professores de violino mais procurados em todo o mundo. O que é que para si faz a diferença entre um bom violinista e um grande violinista?


Zahkar Bron: Não tenho uma resposta única.


AT: Pode dar uma ou algumas das respostas possiveis?


ZB: Vou tentar. Entre os meus alunos há já alguns que pertencem à elite musical. Eu não faria uma divisão entre entre o bom e o grande violinista.

O conceito de violinista como músico e como pessoa são indissoluveis. Nesse sentido podemos destacar alguns momentos. Além disso eu, especialmente nas condições dos concursos, tenho de declarar uma coisa que para mim é muito importante, ou seja: se o talento é verdadeiro é sempre único. Falando num violinista comum, digamos que é uma pessoa que não tem um talento especial.

Segunda condição e esta é a condição indispensável para o meu trabalho como professor, é descobriri o talento com base num profissionalismo por parte do aluno. Um profissionalismo absolutamente incondicional.


AT: Mas eu conheço músicos que estudam oito horas ou mais por dia e dos quais duvido que venham a ser grandes intérpretes.


ZB: Oito horas não basta! É preciso é que haja uma faísca divina e é preciso ter uma orientação correcta no trabalho que se desenvolve. É absolutamente imprescindível uma boa orientação.

Repare: observamos crianças com talento. Avançando a nível etário verificamos que o numero de talentos vai diminuindo até que ficamos com um reduzido numero de estudantes com talento.

Voltando à pergunta inicial quero dizer que um grande violinista é aquele que tem um grande potencial e que sabe expressar esse potencial.


AT: Evidentemente.


ZB: É como em toda a arte. Um artista verdadeiro vê mais longe e mais profundamente.


AT: Estou habituado a seguir concursos de piano. Conheço muitas versões de cada obra e sei perfeitamente distinguir entre um bom pianista e um pianista de génio.


ZB: E com os violinistas não consegue isso?


AT: Claro que sim. Só que como estudei piano conheço exatamente o tipo de problemas que cada peça coloca ao intérprete.


ZB: O que eu queria dizer é que os instrumentos de cordas têm uma individualidade. Não quero ofender os pianistas mas só ouvindo uma nota consigo distinguir um intérprete de um outro.


AT: Sim. Mas o som nas cordas também depende do instrumento que o intérprete utiliza. Por vezes apesar de terem uma técnica excelente não têm um som especialmente bom. Tal como no piano a individualidade sonora do músico também depende do instrumento. Não estou totalmente de acordo consigo porque os pianistas também têm um estilo que os personaliza. Eu distingo perfeitamente a sonoridade do pianista A do pianista B. Mas no violino é de facto o intérprete que faz o som... Será que o violino é um instrumento ainda mais técnico que o piano?


ZB: São outros valores e aspectos. O piano como é um instrumento preparado não é capaz de ser a prolongação da voz humana.

No que diz respeito à mestria os pianistas também se aproximam mas é na natureza das cordas, da sua abordagem pelo instrumentista, que está a importância do som.
O instrumento de cordas contém mais personalidade, por isso...


AT: Bem... Eu discordo mas vamos passar à frente.


ZB: Vamos fazer uma experiência: vou pôr vários discos de grandes pianistas e vai dizer-me que tocam de um modo maravilhoso mas não me vai conseguir dizer quem são.


AT: Não é verdade!


ZB: Porque pelo som não vai conseguir dizer-me quem são os pianistas.


AT: Mas há o estilo! O fraseado! Toda a construção do edifício e da arquitectura da obra!


ZB: Isso passa-se em qualquer instrumento! Assm como fazemos a distinção entre um Carusso e um Lanza pelo timbre das suas vozes, também o fazemos entre violinistas.


AT: No pianos é igual. Eu distingo perfeitamente uma interpretação de Michelangelli de outra da mesma obra executada por Richter, por exemplo.


ZB: Naturalmente. Quando se sabe quem está a tocar!


AT: Não.


ZB: Mas tenho de reconhecer que em muitas coisas o violino cede ao piano. O violino não consegue a qualidade orquestral que o piano consegue.


AT: Claro que não.


ZB: Mas isso é compensado, repito uma vez mais, por aquela personalidade que qualquer instrumento de cordas possui.


AT: Diga-me uma coisa: o que acha das novas interpretações da música antiga em instrumentos da época?


ZB: É uma questão muito complicada e interessante.



ZB: É uma questão muito complicada e interessante. Há interpretações muito interessantes em instrumentos da época mas para essa arte são vitais duas questões: se acontece de facto nas condições de um museu (nota do editor: referir-se-á talvez a pequenas salas que reproduzem a acústica da época) e em segundo lugar a existência de um altíssimo nível artístico-interpretativo.

Infelizmente devo dizer que em muitos casos existem músicos que interpretam em instrumentos da época e que não dominam suficientemente bem os seus instrumentos. E acreditam que podem interpretar música antiga!

Mas quando temos verdadeiros mestres que interpretam este tipo de música nos instrumentos da época, temos música de grande qualidade.

Já ouvi concertos de Bach com instrumentos da época em salas grandes. Provavelmente tocavam muito bem mas passando à sétima fila já não se ouvia nada. Mesmo que a interpretação seja magnífica as condições têm de ser adequadas.


AT: A mim parece-me que a interpretação em cordas de tripa (ne: os violinos antigos não tinham cordas de metal como os actuais) é substancialmente mais complicada que utilizando instrumentos com cordas de metal. Parece-me que os instrumentos antigos exigem maior técnica...


ZB: É uma pergunta?


AT: Sim. Está de acordo comigo


ZB: É necessário uma técnica especial. São sem dúvida necessários conhecimentos especiais.

AT: A interpetação dos russos, no que toca à música antiga e mesmo entre os pianistas, é sempre algo romantizada. O próprio Sokolov que para mim é o maior pianista vivo toca um Bach genial mas um pouco romantizado. Mas é muito bom. Sem dúvida muito bom...


ZB: ...


AT: Richter não romantiza a sua versão de "Cravo Bem Temperado" que continua uma referência.


ZB: Não é muito correcto falar de uma maneira tão generalizada sobre os intérpretes russos. Por exemplo Gillels tem uma interpretação menos romantizada que Richter.


AT: Mas o Richter não romantiza. Falo-lhe novamente do Cravo bem temperado, apesar de ser uma interpretação ao piano...


ZB: Diria entretanto que o que caracteriza a escola de interpretação Russa em termos muito gerais é a existência de uma espiritualidade muito particular. Uma boa técnica sim senhor mas penetrada por uma espiritualidade muito particular.


AT: Vou-lhe fazer uma pergunta difícil...


ZB: Faça lá.


AT: Dos seus ex-alunos famosos ...

(risos)

AT: Quais são so seus preferidos?


ZB: O senhor não é o primeiro que me faz esta pergunta e vou-lhe responder da mesma maneira que respondi a outras pessoas: o meu aluno preferido ainda está à minha espera.

(risos)

ZB: Não seria correcto comparar alunos. Nuns momentos sinto-me mais próximo de uns, noutros de outros mas no fundo amo-os a todos.


AT: O seu ex-aluno Maxim Vengerov é um violinista de génio?


ZB: É um excelente violinista. Um dos melhores desta geração. Quanto à genialidade é uma questão de gosto.

Para mim pessoalmente os êxitos mais assinaláveis são os o meu aluno Vadim Repin.
Entre os seus colegas acontece confundirem a genialidade com a popularidade. No caso de Maxim Vengerov temos um violinista que se presta ao show sendo portanto mais popular entre algum público. Mas claro que é um magnífico violinista...


AT: Eu prefito Repin. Já ouvi os dois várias vezes e prefiro Repin.


ZB: Eu também, eu também!


(risos)


AT: Diga-me uma coisa: na música contemporânea quais são os compositores que lhe parecem mais interessantes?


ZB: A música que eu toco talvez não seja a mais moderna mas é com muito prazer que ouço a música dos compositores contemporâneos. Gosto muito de Schnitke! Gosto também da música de Chostakovitch, Prokovief, Stravisnsky que naturalmente já não são contemporâneos. De Bártok também. Mas também não são assim tão antigos...

Há muitos compositores contemporâneos muito interessantes na Lituânia. Barkanski, por exemplo. Mas há mais. Muitos. Não estou preparado para dar uma resposta imediata porque há muitos.


AT: Gostaria de dizer algo de especial aos leitores da minha página na internet?

(risos)

ZB: Para acrescentar ao que já disse devo confesar que estou muito contente pelo sucesso deste primeiro Festival de Música de Lisboa e pelo facto de se terem juntado nesta cidade grande numero de músicos talentosos.


AT: E eu estou muito contente por esta conversa inteligente e espero que possamos continuá-la ná próxima edição deste festival.


ZB: Estará tudo no seu site na internet?


AT: Tudo. Não faço cortes.



Um agradecimento especial para Galina Mitrohovitch que fez a tradução em directo do Português para o Russo e vice-versa






Abdel Rahman El-Bacha

Um dia após finalizar uma impressionante integral das obras para piano de Chopin, fui encontrar o pianista no hotel de Sintra onde a produção do festival o alojou na companhia do seu "staff".

Devo desde já assinalar que se trata de uma entrevista fundamental tanto para intérpretes como para compositores e estudantes de composição. El-Bacha não é simplesmente o protagonista do grande acontecimento desta edição do Festival de Sintra e - em meu entender - da temporada musical portuguesa de 2003/2004. É um intérprete que se preocupou em estudar profundamente análise e composição musical com "grandes mestres" como se referiu aos seus ex-professores de harmonia e contraponto, intérprete este dotado de conceitos estéticos muito pessoais e fundamentados que sem necessidade de grandes delongas põe totalmente em causa o conceito "pós-moderno" do "interessante" em arte.

Para além de toda e qualquer divergência em relação ao que o pianista disse no que toca à música contemporânea, esta entrevista é uma viagem à alma de um grande músico, de um ser humano íntegro que não hesita em "saltar" à defesa de uma colega pianista que eu classifiquei de "superficial e vedeta", um artísta com uma sensibilidade muito personalizada assente em concepções estético/interpretativas sólidas e inteligentes.

Álvaro Teixeira: Gostaria de saber a sua opinião sobre a escola de piano francesa. Eu tenho vários registos de históricos como Cortot e Samson François onde fica patente a debilidade técnica destes intérpretes. Pelo contrário, como todos puderam testemunhar na sua integral, você não parece padecer desta limitação. Que mudou na escola francesa de piano?

El-Bacha: Você não deveria comparar os registos feitos nessa época com os de hoje mas compará-los com outros registos da mesma época feitos noutros países.

A técnica de gravação evoluiu permitindo corrigir erros com toda a facilidade. Hoje é possivel substituir-se uma só nota, coisa impensável naquela época. Actualmente fazem-se autênticas montagens em estúdio!

Mas isso é só um dos aspectos. O nível técnico dos intérpretes evoluiu. O domínio instrumental desenvolveu-se enormemente nos conservatórios de todo o mundo. Hoje quando se escutam os jovens nos concursos internacionais percebe-se que revelam menos dificuldades técnicas que pianistas como Cortot.

Tenho de lhe dizer uma coisa: não acredito que alguém como Cortot estudasse piano todos os dias. Ele não vivia exclusivamente para o piano. Ele escrevia, dirigia, e provavelmente não tinha grande metodologia de trabalho. Quando Cortot queria tinha uma sonoridade excepcional, além de que tinha uns dedos fabulosos. Simplesmente não era um pianista empenhado.

Com Samson François é parecido. Mas ele tinha um grave problema de alcoolismo! Ao ponto de no final da sua carreira tocar visivelmente mal e ser assobiado pelo público. Apesar de tudo Samson François foi um pianista inspirado.

AT: Lembro-me que a gravação dos nocturnos de Chopin por este pianista são dos registos mais belos que existem destas peças. São os meus preferidos a seguir ás últimas gravações de Vlado Perlemuter. No entanto as baladas gravadas por Samson François são bastante más...

E-B: Não se esqueça que un registo é só um par de momentos na carreira de um artista. Por vezes o pianista não está contente com o resultado mas assinou um contrato que estabelece prazos...

Eu avalio um artista pelo que ele fez de melhor e Samson François, apesar de tudo, foi um grande pianista.

Agora volto ao tema da escola francesa. Quando se trata de um génio da interpretação a escola não tem assim tanta importância porque um génio é-o a tempo inteiro e desde sempre. Não se pode ensinar a inspiração e o talento. Não se pode ensinar a intuição musical. Pode-se ensinar técnica, análise e transmitir experiências, não o talento. Por isso eu ponho em questão o principio das escolas, sobretudo hoje que os professores fazem "master-classes" em todo o lado e os jovens pianistas antes de começarem a carreira já viajaram a vários paises e já trabalharam com vários mestres.

O que pode ser uma debilidade do que podemos chamar a escola francesa é talvez o primado da fantasia em deterimento de uma análise profunda das obras. É talvez isto que caracteriza a escola francesa tradicional.

O que caracterizará a escola russa, por exemplo, é a quantidade de emoção e o facto da interpretação ser uma vivência profunda. Por vezes acompanha-se de excessos, muitas vezes insuportáveis que conduzem a uma total falta de controle e equilibrio, resultando numa falta global de estética.

Efectivamente temos de reconhecer que há características das escolas... A escola alemã é muito séria e exige que a interpretação seja bem definida e pensada. Pode ter o defeito de uma certa frieza se não há inspiração e genialidade no intérprete.

AT: Mas na actualidade não existem grandes pianistas alemães...

E-B: Muito recentmente apareceram uns jovens alemães que se fizeram notar no concurso Elisabeth. Em 2003 o primeiro prémio foi para um alemão. Não sei o que eles farão mais tarde... Tivémos o periodo de Kempf e Schnabel...

AT: Que revelaram fortes debilidades técnicas também. Schnabel nalgumas gravações ao vivo é simplesmente um desastre!

E-B: Numa gravação ao vivo tudo pode acontecer. Eu não me quero comparar mas é reconhecido e é verdade que ao nivel técnico estou acima da média, mas é evidente que naquela época eram menos preciosistas e menos atentos ao detalhe. No entanto Schnabel tinha uma grande técnica.

AT: Kempf revela claramente problemas técnicos. Até nas gravações em estúdio!

E-B: Neste caso tenho de lhe dar razão.

AT: Claro que tem...

E-B: Ele era magnífico nas sonoridades que conseguia nos mezzo-fortes. Mas quando tinha de fazer um escalonamento gradual e imperceptível nos crescendos, quando tinha que tratar as curvas dinâmicas, as nuances, aí era evidente o que acaba de afirmar.

AT: Problemas ao nível mesmo da dedilhação... Nas sonatas de Beethoven por exemplo.

E-B: Sim mas temos de nos lembrar que se trata de uma gravação numa idade avançada. No entanto a sua inspiração continuou intacta o que nos leva a secundarizar as suas debilidades técnicas. Temos de nos lembrar das execuções de quando era jovem. É isto que eu penso. Há épocas de um pianista e as interpretações não se mantêm sempre iguais.

AT: Lembro-me de um recital de Richter em que ele deu demasiadas notas erradas... Mas apesar disso conseguiu ser genial!

E-B: Richter faz parte de outra geração. De uma geração que se preocupou em desenvolver a perfeição e que coincidiu com a idade de ouro do disco.

AT: Mas ele sempre recusou qualquer tipo de intervenção em estúdio. Nos "Tableaux d'une exposition" que foram gravados ao vivo no conservatório de Moscovo, ele começa com um erro que não seria dificil de corrigir em estúdio. Mas ficou lá!

E-B: Vou-lhe dizer uma coisa: eu tenho uma maneira de gravar. Nunca gravo menos de 15, 20 minutos de cada vez. Frequentemente gravo peças inteiras sem interrupção.

Quando registei a Hammerklavier, toquei-a de uma só vez.

Eu acho que numa gravação em estúdio tem-se que procurar um equilíbrio entre o concerto ao vivo e o conforto do estúdio. Começo por gravar um pequeno trecho sobre o qual eu e o engenheiro de som fazemos os ajustes e as regulações necessárias para que quem adquire o cd tenha um bom som sem ruídos ou interferências. Depois começamos a fazer gravações longas, por vezes obras inteiras. Jamais pequenas partes pois trata-se de conservar a "essência" e o impulso interior da obra que corre o risco de se perder totalmente quando se utiliza o método da colagem de pequenos pedaços que espartilham a peça.

Se se quer conservar o discurso musical e a vida interior da obra, como acontece ou deve acontecer em concerto, então temos um grande e sério trabalho por parte do intérprete.

AT: Tenho de lhe dizer que fiquei com a impressão que você está mais à vontade nos movimentos rápidos e nas pequenas estruturas.

E-B: Isso acontece-me frequentemente. O piano tem um som que "morre". Não se prolonga no tempo como se pode fazer com os metais e as madeiras, por exemplo. Nestes instrumentos o mesmo som pode mesmo fazer um crescendo. No piano, um som produzido por um único ataque tem uma vida curta. Um movimento rápido não nos propõe que sons curtos o que no limite é mais fácil. Quanto mais um movimento é lento maior a dificuldade de evocar o "canto" pois é necessário inventar um arco suposto por uma continuidade que não existe. Nós os pianistas temos de inventar um sopro de continuidade utilizando martelos que percutem. Esta dificuldade existe em todos os pianistas.

Mas devo-lhe dizer que em muitos recitais estive totalmente à-vontade em movimentos muito lentos. Deixe-me lembrar...

Por exemplo: tive um recital que começou com os nocturnos op 37. O primeiro desses nocturnos que está em sol menor, tem no meio uma longa passagem em acordes muito lentos que exigem uma concentração religiosa. Foi um momento difícil mas consegui e o público reagiu a isso com grandes aplausos.

Mas não nego a facilidade que tenho de fazer com um à-vontade pouco raro passagens muito difíceis. Eu sei como as preparar. Como as trabalhar. Que dedilhação escolher em função daquilo que conheço da dedilhação utilizada pelo compositor e da sua maneira de interpretar as obras que criou.

Penso muito em tudo isso antes de escolher uma das dedilhações possíveis. Por vezes as dificuldades estão onde não são nada evidentes...

Também tenho uma maneira serena de me confrontar com as dificuldades técnicas. Não me permito entrar em tensão porque isso vai-se repercutir ao nível muscular.

Alguns pianistas, apesar de terem uma boa técnica, quando se confrontam com uma passagem difícil têm mêdo e reduzem ligeiramente o andamento. Sem querem ficam com a musculação tensa e a interpretação resulta menos conseguida.

Pode ser que voce tenha razão ao referir-me como debilidade a propensão para os movimentos rápidos, mas posso dizer-lhe que neste momento não sinto qualquer dificuldade técnica de vulto em nenhuma das obras que existem para piano na actualidade.

E vou-lhe dizer outra coisa talvez mais importante: o fundamental é estar-se à altura da inspiração.

Por vezes, quando há ruídos ou o piano não está bem equilibrado, a inspiração é um pouco bloqueada. Não sei se tudo isto é claro para si...

AT: Claro que sim. Tem consciência que os seus recitais do dia 13 foram nitidamente superiores aos dos outros dias?

E-B: Dia 13...

AT: Os estudos op 25 e os Prelúdios...

E-B: Superiores para si? Teve essa percepção?

AT: De forma muito nítida.

E-B: Não sei... Na verdade quando toco os Prelúdios

AT: e os estudos op 25...

E-B: há sempre uma muito boa reacção por parte do público. Se quiser pode dizer que são pequenas peças...

AT: Sim. E movimentos rápidos, na generalidade.

E-B: De acordo. Mas não fiquei muito contente com a minha interpretação do estudo numero 6, que é rápido... Isso passou-se porque não tinha o piano que necessitava.

O piano de Chopin era muito leve e "glissant". No entanto não gostaria, neste momento, de fazer uma integral num piano da época porque não teria a qualidade sonora, a riqueza tímbrica e a precisão mecânica dos pianos modernos.

Nesta integral tive o problema de um teclado que nalgumas zonas era demasiado duro o que colocava problemas de "toucher" e interferia não só com os ataques mas também com as dinâmicas.

Mas... Então considera-me mais vocacionado para as pequenas formas...

Então diga-me o que para si seria algo de difícil para mim. O "largo" da terceira sonata, por exemplo?

Qual o momento que achou menos conseguido na minha interpretação? Algum problema de concentração?

AT: Algo assim... Por vezes parecia um pouco perdido no interior de algumas peças... Em algumas Mazurkas por exemplo...

E-B: Ontem... Estou de acordo consigo para a primeira das Mazurkas op 56. Eu buscava a minha sonoridade e não a encontrei.

As últimas obras de Chopin exploram muito o médio e o grave. Neste piano (e isso perturbou-me ao logo de toda a integral) estes registos têm de ser bem atacados senão soam debilmente. Quiz tocar essa Mazurka de forma leve e delicada nesses registos e o som não saíu como eu desejava. Também estava já sob a fadiga dos dias passados...

Uma integral é algo denso e exigente. Provavelmente há coisas que vou modificar ao longo do tempo...

Mas se fala de outras Mazurkas diga-me por favor.

AT: O problema é que só anotei aquilo que achei excepcional... Tive várias vezes a sensação de me sentir perdido em obras que pensava conhecer bem... Isso por causa dos seus tempos, das suas acentuações e algumas suspensões...

E-B: Compreendo... Não toquei como esperava que eu tocasse. Mas devo-lhe dizer que eu faço parte daquela classe de pianistas que quase não utilizam o "rubato" e isso origina críticas. Não é para responder a essas críticas mas

AT: Faz paragens! Paragens que me deixaram surpreendido.

E-B: Está a falar da Polonaise-Fantasia? Não nos podemos esquecer que é uma improvisação onde nada deve estar previsto à partida e tudo deve surgir da vontade do momento. Por isso o público não pode seguir o intérprete e não pode esperar que ele faça isto ou aquilo.

Noutras obras, eu sei que fiz uma paragem importante no desenvolvimento do primeiro andamento da terceira sonata, onde há uma grande e estranha modulação. Se não se faz aquela paragem essa importante modulação vai passar despercebida.

Situações destas são totalmente voluntárias. Mas a maior parte do tempo , o que lhe posso dizer é que me criticam por ser demasiado regular.

Mas tenho de lhe dizer que eu não toco um compasso com o mesmo ritmo que o precedente. Eu sigo o desenvolvimento das vagas de expressão. Se a expressão deve acelerar eu acelero... É qualquer coisa intuitiva mas em permanente movimento e eu creio que depois de tudo o que se testemunhou do rubato de Chopin enquanto intérprete das suas composições, daquilo que os seus contemporâneos testemunharam, tem-se de ter em conta as afirmações de que o rubato de Chopin era natural e discreto ao ponto de muitos dizerem que ele não utilizava "rubatos".

Mas é verdade que você não falou do "rubato" mas de paragens. Só lhe posso dizer que essas paragens são raras.

AT: Não falei de "rubato" até porque Vlado Perlemuter que eu admiro, quase não o utiliza ou utiliza-o discretamente como acaba de referiri a propósito de Chopin. Para mim O "rubato" não tem pertinência. Mesmo o Sokolov que é paradigmático não o utiliza assim tanto...

E-B: Sim. Sokolov é seguramente um imenso pianista. Ouvi-o um dia quando por acaso liguei a televisão e vio-o a interpretar as últimas Mazurkas. É absolutamente musical mas não posso compartilhar a opinião que faz um rubato discreto. Pelo menos naquele registo tocou com muito "rubato".

Isso não é uma crítica a Sokolov. É só para lhe dizer que é dificil tocar Chopin com demasiado regularidade. Segundo o momento faz-se um "rubato" ou outro.
Se o "rubato" surpreende é porque talvez não seja motivado naturalmente. É necessário que o "rubato" não seja notado. Quando o público não percebe o rubato é porque ele é natural.

AT: Excluindo os pianistas da escola francesa, quem são para si os mais marcantes da actualidade? É quase uma pergunta incorrecta...

E-B: Não. De todo! Quando há talento há lugar para todos. Não se é obrigado a escutar sempre os mesmos. É como com as flores: podemos oferecer diferentes flores igualmente belas.

Na música somos todos diferentes e cada um deve impôr-se pela sua excelência.
Deve-se dar sempre o nosso melhor mas não se deve ter como objectivo ser melhor que este ou aquele.

É por isso que eu não escuto muitos os meus colegas, por isso a minha resposta vai sofrer dessa limitação.

Em todo o caso, entre aqueles que eu pûde escutar, há dois que me marcaram entre os jovens pianistas franceses: Hélène Grimaud e Phillipe Jossiano.

Este último ganhou o segundo prémio no concurso Chopin em 95, creio. É um pianista que tem muita sensibilidade, que tem verdadeiramente a sua própria maneira de tocar com muita nobreza e muito sentimento. Quando há sentimento e nobreza temos Chopin.

AT: No que concerne a Grimaud não a acha uma vedeta superficial?

E-B: A mim não me interessa o que fizeram dela al nível mediático. A mim interessa-me simplesmente a música. Eu ouvi-a quando ela tinha 16 anos

AT: Agora tem 30!

E-B: Eu sei. mas ouvi-a também recentemente. Quando a ouvi quando ela tinha 16, percebi imediatamente que ela era dotada de uma enorme inteligência musical que é provavelmente a sua maior qualidade.

É verdade que me aconteceu ouvi-la por acaso na rádio antes de saber que era ela e achei a interpretação algo dura. Fiquei intristecido por ela ter evoluído daquela maneira.

Mesmo assim devo dizer que recentemente ouvi-a tocar algumas peças de Brahms e Rachmaninof e que apesar de não ser uma grande técnica sente-se que é uma grande música. Ela consegue emocionar-me.

AT: Conhece pianista portugueses?

E-B: Quem?

AT: Há dois muito conhecidos... Maria João Pires

H-B: Ha!!!

AT: e Artur Pizarro.

H-B: Não conheço Pizarro mas Pires é um monumento! Não falei nela porque estávamos a falar de pianistas franceses ou da escola francesa.

AT: Pois... De facto a minha questão inicial foi excluindo os franceses... Mas não importa. Se quiser continuar a falar...

E-B: Hã sim? Pois Pires é um monumento. Eu não conheço as suas interpretações de Chopin... Melhor: ouvi uma vez um Chopin por ela e foi mágico! como já percebeu evito ouvir outros intérpretes a tocar Chopin pois procuro partir do vazio ou quase.

Eu tenho uma grande estima pela grande artista e agora que fui nomeado professor na Chapella Reine Elisabeth na Bélgica, já a convidei para fazer "master-classes" com os meus alunos que são uma classe especial de pianistas em pré-carreira. Os dois pianistas que propûs logo no início foram Pires e Freire que já aceitaram.
Há também o imenso pianista que é Christian Zimmerman. Maurício Polini que foi um choque quando escutei um registo dele aos quinze anos...

AT: Ás vezes demasiado técnico...

E-B: Sim, sim... Mas com uma grande inteligência musical e uma enorme sensibilidade.

Há sempre qualquer defeito. Não se pode esperar a perfeição!

Mas há aqueles que conseguem um equilibrio como Dino Lipatti...

AT: Só o ouvi em disco...

E-B: Sim. Já há muito que não está entre nós. Eu também só o ouvi em disco. É fenomenal em todos os planos: técnica, inteligência, compreensão, inspiração...

AT: Pode-se falar de uma escola italiana de piano ou nem por isso? Michelangelli, Lipatti, Pollini...

E-B: Lipatti era Romeno.

AT: Claro. Que estupidez a minha!

E-B: Eu creio que há uma sensibilidade mediterrânica e eu integro-me nesse género de sensibilidade. Mas não é uma escola. Existe uma sensibilidade e uma cultura mediterrânicas... Talvez por isso já me compararam a esses pianistas. Não ao Michelangelli mas ao Lipatti e ao Pollini.

Mas já me compararam a outros como Richter e Horovitz, o que me espantou. E até a Samson François!

AT: Quem foi o seu professor?

E-B: Em Beirute foi Zvart Sarkissian. Ela estudou um pouco com Marguerite Long. Depois estudei com Jacques Février.... Finalmente com Pierre Sancan.

AT: Portanto a escola francesa...

E-B: Pierre Sancan foi o primeiro prémio de Roma em composição. Não era sómente pianista.

O que muito me engrandeceu foram as classes de análise, harmonia e contraponto que frequentei no conservatório com grandes mestres. Isso ajudou-me a pensar como interpretar uma composição, como encontrar as cores harmónicas... O conhecimento da harmonia é fundamental!

AT: O que se passa com a música contemporânea? Creio que os pianistas não gostam muito de interpretar obras contemporâneas...

E-B: Depende de que música contemporânea. Eu toquei um pouco de Schoenberg e de Webern...

AT: São já dois clássicos...

E-B: Você pensa que quando se faz um programa com esses compositores se tem a casa cheia?

Para a maior parte das pessoas Schoenberg é difícil de escutar!

AT: Eu estive num concerto no teatro do Chatelêt, dirigido por Simon Rattle em que a primeira parte foi o concerto para piano de Schoenberg e na segunda foi o canto da terra de Mahler. A casa estava cheia e o público adorou! um público que não era o "público tipo" da música contemporânea...

E-B: Sim. Mas em Paris arrisca-se! para mim Schoenberg entrou na história mas não creio que ele tenha entradode facto na música clássica. Falo da música que é escutada pelo "grande público" e daquela que se ouve instintivamente quando se chega a casa.

Vejo de quem você fala. Pendereki, Bério, Ligetti, Xenakis, Boulez, Stockausen...

AT: E os mais jovens...

E-B: Por exemplo?

AT: Hum... Brian Ferneyhough, por exemplo.

E-B: Dusapin...

AT: Esse já é quase um clássico em França.

E-B: Sim.

AT: Falou-me em compositores instalados. Na história e nas instituições...

E-B: Sim, mas...

AT: Stockausen com os seus Klavierstück que são interessantes para um pianista... Eu não gosto de Stockausen mas essas peças são boas para os pianistas. Para uma primeira parte de um recital. Por não Beethoven na segunda parte?

E-B: Sim. Há pianistas que o fazem.

Mas há que ter muita atenção: a música não é para ser interessante (sublinhado do editor) .
A música, para mim, é feita para exaltar a vida. A felicidade de se viver.

AT: É uma religião para si?

E-B: Mas sim! Sem dúvida.

A música é sagrada. Não é uma diversão. Não é uma inteligência de invenção e construção (sde) .

Para mim a música é um canto eterno.

De acordo: cada um capta-a de acordo com a sua personalidade e de acordo com a sua época. Mas para mim alguém como Monpou diz-me bem mais que alguém como Stockausen.
É também uma questão de tempo e de escolha. Nós pianistas temos muito repertório por onde escolher. Muito e bom repertório. Fazemos as escolhas que nos vão fazer melhor e que vão permitir o nosso crescimento.

Se eu fôr tocar o que é "interessante" na música contemporânea não terei tempo para trabalhar Beethoven, Schuman ou Ravel, os "grandes" que são indispensáveis à minha existência.

Ocasionalmente faço uma experiência. Não sou fechado. Já estreei obras contemporâneas em Paris e Bruxelas. Mas eu conheço também as limitações desta música porque é uma música que frequentemente se satisfaz em ser interessante e inteligente (sde) .

Como já lhe disse, tenho uma definição de música. Podemos falar de construção sonora, podemos falar de inteligência sonora mas é por vezes um pouco abusivo dar o título de música áquilo que não tem nem melodia nem tempo nem ritmo nem harmonia nem contraponto nem estrutura. Porque antes de tudo, Beethoven mudou a história da música mas manteve estes parâmetros. Prokofief também mudou, foi um revolucionário, mas também conservou estes parâmetros que se não existirem talvez tenhamos que falor de outra coisa que não música.

A prova é que conheço muitos "músicos" que não sabem nem uma nota e que, com computadores, produzem um mundo sonoro prodigioso. para mim isso não é música.
Se Beethoven se fartou de trabalhar e estudar para fazer a sua primeira sinfonia não é um qualquer que chega hoje ao pé de mim e me diz "aqui está uma sinfonia" que é um músico. Isso é burlar-se dos verdadeiros músicos. Eu estou em revolução em contra de chamar a isso música.

Isto não quer dizer que eu não admire esses trabalhos, da mesma maneira que posso admirar a construção de uma casa. Mas se ela não fôr habitável como vamos dizer que é uma casa? Podemos talvez dizer que é uma escultura...

AT: Conhece por exemplo as peças de piano de Ligetti?

E-B: Claro que sim. Os estudos por exemplo.

AT: E acha que isso não é música?

EB: São fabulosos! Mas eu não gosto. Onde está o canto? Há alusões mas isso não é canto. É uma recordação do canto.

Claro que isto não tira valor a essas obras. Importa é encontrar uma denominação adquada.

Para mim uma música pop é mais música, ainda que da má, que esse género de obras contemporâneas. Porque têm melodia e estrutura, ainda que simples.

AT: Você parte de pressupostos que não se podem universalizar. O que é a melodia? O que é o canto? Xenakis e Ligetti entendem a música como um universo de deslocações e densidades sonoras.

E-B: Sim. Mas a quem é que comunicam isso?

AT: Aos seus públicos evidentemente. Públicos esses que também se emocionam. Vi chorarem na ópera "Le grand macabre"!

E-B: Sim. Mas foi o tema que os levou a chorar.

AT: Como pode fazer uma afirmação dessas?

E-B: Eu trabalhei obras de grande complexidade como o Pierrot Lunaire de Schoenberg e a Paixão Segundo São Lucas de Pendereki.

Os estudos de Ligetti, esses conheço-os como as palmas da minha mão. Não me pode acusar de falta de conhecimento, de falta de análise dessas obras.

Se existe um público que considera essas obras música, eu retiro-me. Não faço parte desse público.

Eu não quero retirar da música aquilo que faz parte dela mas a música evoluiu num sentido tão radical que muita gente, muita gente mesmo, considera que isso já não é música.

Não o espanta que a maior parte dos pianistas, dos grandes pianistas recusem as obras contemporâneas? Cite-me grandes pianistas que as tocam. Pires toca música contemporânea? Brendel toca-a? E Perahia? Todos eles grandes músicos...

AT: Pollini trabalhou muito com Nono.

E-B: Isso fazia parte da sua personalidade. Da sua militância.

AT: Emmanuel Ax toca música contemporânea.

E-B: Eles permitiram ás pessoas - e foi esse o papel que assumiram - de conhecerem, na sua melhor forma, as obras contemporâneas para melhor as poderem julgar. Pollini quase que só fez música contemporânea com Nono. Um contemporâneo!
Eu não estou motivado sequer para tocar os Vingt Regards de Messiaen. Uma obra que é seguramente música da boa.

AT: Não gosto especialmente mas admitamos que sim. Que é "grande música".

E-B: Portanto eu não tenho tempo e não dou prioridade a este repertório. Se eu tenho tempo actualmente para trabalhar novas obras, irei escolher a 5ª Sonata de Prokofief e a sua 8ª.

AT: E Scriabin?

E-B: Toquei Scriabin e para mim é um compositor "tipo intelectual". Mesmo na sua fase romântica é pendentemente intelectual.

AT: A sua primeira fase é tipicamente romântica...

E-B: Não tanto assim. É como Liszt que é romântico e fez música de pendor intelectual e abstracto.

AT: A sonata para piano de Liszt é do melhor que o romantismo nos legou...

E-B: Toquei-a várias vezes. Mas digo-lhe francamente: para mim há mais de parecer que de ser.

AT: Para mim essa sonata é um monumento da música de todos os tempos.

E-B: Não para mim. A sonata em si menor de Chopin vai mais longe (sde) . Esta sonata vai bastante mais longe.

AT: Coisas diferentes...

E-B: São diferentes mas partimos sempre de uma sensibilidade determinada que como nós está delimitada pelo tempo e pelo espaço. Não é um julgamento absoluto. Tudo o que tenho dito não é um julgamento absoluto porque isso não existe (sde) .

AT: Mas, voltando à música contemporânea, vou-lhe dizer uma coisa: aqui em Lisboa há um público mais receptivo que em Paris. Lembro-me de ver em concertos no Ircam interessantíssimos, diga-se de passagem, diz ou quinze pessoas. Nós os que estávamos no curso e mais uns quantos conhecidos nossos. No Ircam que é uma das catedrais, se não mesmo "a catedral" da música contemporânea mundial! Creio, a fazer fé no que me disseram alguns amigos franceses, que o Ircam é detestado pelas quantidades que o estado francês investe naquela instituição, das quais só beneficia uma pequeníssima élite.

E-B: Não sei. Em todo o caso os média podem ter um papel no sentido de elevar o interesse pela música contemporânea e isso parece-me muito bem.
Mas o que lhe quero dizer é que o "pecado" de muitos compositores contemporâneos foi quererem a todo o custo fazer música nova. A novidade para eles não é comandada pela inspiração mas pela vontade. É a sua vontade de fazer história que comanda a inspiração e isso não resulta (sde). A vontade de ser original é maior que a necessidade interior de se exprimirem pela criação musical.

Quando eu era pequeno comecei a sentir a música como um grande amor, um grande sentimento que me preenchia. Se me tivessem dado a ouvir música contemporânea quando eu tinha quatro anos provavelmente hoje não seria músico.

Eu quero falar de compositores que tomando como modelo a Grande Fuga de Beethoven ou o final da segunda sonata de Chopin que é qualquer coisa de quase atonal...

AT: E as últimas peças de Liszt?

E-B: Ou as últimas peças de Liszt...
Quando se fala de composição não há que esquecer que Chopin após compôr a sua segunda sonata compôs um nocturno de uma enorme simplicidade. É necessário saber-se fazer as duas coisas.

O que eu contesto em alguns compositores que dizem ser da nossa época é o facto de não serem capazes de compôr uma melodia que alguém goste de cantar. Como com os pintores que se dizem contemporâneos e que são incapazes de fazer um retrato que leve as pessoas a olharem-no com gosto. Que se passa então? Vai-me dizer que sou reaccionário? Mas é necessário ser-se capaz dessas criações!

AT: Em Paris as exposições de arte contemporânea esgotam sempre. Todos os dias a abarrotar de gente. As pessoas gostam daquela arte.

E-B: Isso não é uma referência. Se um pianista vem ter comigo a tocar com os pés, os cotovelos e os braços, no final pedir-lhe-ei que toque uma escala e um andamento de uma sonata de Mozart. Se ele não fôr capaz dir-lhe-ei: obrigado por ter vindo mas pode ir embora.

AT: Evidentemente!

E-B: Quando eu digo "ser capaz" não significa que o artista tenha de estabelecer todo o seu estilo sobre uma escala, uma peça de Mozart ou na pintura de um retrato. Mas tem de ser capaz de fazer isto se foi educado para a arte.
Eis o que faz a diferença entre um verdadeiro artista e um qualquer que faz não importa o quê e se auto-intitula como tal.

Produzir ruídos e construções sonoras num teclado, qualquer imbecil o pode fazer.
Falo de extremos porque eu reconheço a imaginação e inteligência dos que são reconhecidos como compositores contemporâneos.

Mas não pensa que falta um pouco de modéstia a estes compositores contemporâneos reconhecidos, alguns dos quais voce já considera clássicos?

AT: Conheço poucos pessoalmente...

E-B: E Chopin quando tinha 20 anos? Com vinte anos Chopin já se tinha inscrito na eternidade (sde)!

A maior parte desses compositores contemporâneos que reconhecemos como inteligentes quiseram fixar-se na história antes de se fixarem na eternidade. A arte não pertençe à história: a arte pertence à eternidade!

Não é artista quem quer. Pode-se aprender muita coisa mas não se aprende a ser artista. Não se é artista porque se decide ser artista (sde).

Deus decidiu que Chopin era um artista mas não creio que tivesse decidido isso para a generalidade dos artistas contemporâneos.

AT: Muito obrigado.





Sequeira Costa

TUDO RESIDE NA FORMAÇÃO BÁSICA

Sequeira Costa não necessita de apresentações. Conversamos com ele no final da edição 2001 do Concurso Internacional Vianna da Motta, do qual é o presidente e fundador (http://www.vdamotta.org/comp.htm). Entrevista trazida a público tardiamente, devido a contingências de Portugal e dos portugueses (esta entrevista foi censurada no "media" online a que inicialmente se destinava), mas que mantém uma actualidade pertinente e evidente.

Álvaro Teixeira - Acha sintomático termos um espanhol em terceiro lugar (nas classificaçöes finais do concurso) e nenhum português entre os sete primeiros?

Sequeira Costa - Entre os sete primeiros? Mas os portugueses foram logo eliminados na primeira eliminatória!

AT- É sensato perguntar-lhe se acha que Portugal algum dia estará culturalmente a par dos outros países da Europa? Ou será uma pergunta ridícula?

SC- Não é ridículo perguntar-me isso. No entanto é uma pergunta para a qual não tenho resposta. Já no tempo das legiães romanas, estas se referiam aos lusitanos como uma raça indomável. É um problema de mentalidade. Portugal não é a Alemanha nem a Rússia. Temos outras coisas boas. O sol, a praia, o tinto...

Segundo as estatísticas somos os primeiros em acidentes rodoviários, näo é verdade? E parece que na corrupção também...

O dinheiro em Portugal não está bem dividido. Em vez de mandarem bolseiros para o estrangeiro deviam trazer meia dúzia de mestres para cá. Talvez então, dentro de dez anos, pudéssemos não estar tão longe... Ontem (na cerimónia da entrega dos prémios) falei no ensino básico! Tudo reside na formaçäo básica! É esta que permite o desenvolvimento de um povo. Depois há os oportunistas! Aqueles que só buscam subsídios...

AT- E da Espanha? Estamos muito longe?

SC- Sem dúvida. Os espanhóis revelaram-se sobretudo no domínio das vozes e são dos melhores. Talvez a melhor escola europeia...

AT- Acha que caso a direita volte ao poder, a cultura em Portugal vai ganhar?

SC- Os movimentos democráticos em Portugal, a seguir ao 25 de Abril, tiveram concepções válidas. A prova é que hoje existem muito mais concertos, festivais, etc. Se a direita voltar ao poder será igual ou parecido. O problema é a mentalidade e a falta de educacão básica. A educacão musical é fundamental e as criancas têm de ser obrigadas a estudar música com a mesma seriedade e disciplina com que estudam matemática e história para futuramente saberem distinguir entre Stockausen e Rameau. O que as velhas finas portuguesas conhecem é a sonata "pateta" do "Bitoven". Nada mais! Um dia estava em casa de uma dessas finórias e disse ela para a sobrinha: "ó querida toca lá a sonata pateta para o senhor professor te ouvir".

AT- Não acha que está tudo absurdamente concentrado em Lisboa?

SC- Totalmente de acordo. É a mentalidade! Esta Fundação (Gulbenkian) foi uma mina de Salomão que de repente apareceu aqui e as pessoas que a governam gostam é de aparecer nos concertos mas não se preocupam seriamente com a divulgação cultural. Não existe essa preocupação. Um artista vem cá, deveria dar 6 ou 7 recitais em cidades diferentes. Mas não, toca aqui na fundação e vai-se embora. Fundamentalmente a maneira de organizar as coisas está incorreta. Não é com a vinda de grandes orquestras a Lisboa, ás quais se pagam milhões de contos todos os anos, que se educam culturalmente os portugueses...

AT- Nestes festivais de piano descuram-se as obras contemporâneas...

SC- Mentira! Os concorrentes eram obrigados a trazer uma peça de um compositor contemporâneo. Não esteve no concurso desde o início, pois não?

AT- Não.

SC- Pois foi uma pena!

AT- A divulgaçäo foi quase nula. Soube por acaso...

SC- É impressionante como a imprensa portuguesa boicota um acontecimento destes...

AT- Se eu lhe propusesse realizaria a próxima edição em Trás-os-Montes?

SC- Só o faria porque o meu avô é oriundo de Trás-os-Montes. Só por isso pois o Viana da Motta nasceu e deu aulas em Lisboa. No Porto já têm um concurso de piano, fui eu que o validei internacionalmente como membro da Federação Mundial de Concursos de Piano. É um concurso sem grande projecção internacional... Nestas coisas Portugal ainda está na pré-história.

AT- Que conselhos daria ao ministro da Educação?

SC- Falei com ele ontem. Já lhe disse o que penso.

AT- Será que existe algo como uma "alma lusa" que impele os portugueses para o futebol, para o fado e para Fátima, ao mesmo tempo que os afasta da "grande cultura"?

SC- Não se esqueça que todos nós temos sangue árabe. O calor origina preguiça mental e física que diminui as nossas capacidades... As pessoas do Sul querem tudo rápido e fácil... Parece que a feira do livro deste ano teve poucas pessoas. Os portugueses não lêem. Também ganham muito pouco...

AT- Escolheu um júri relativamente jovem porque acredita poderem estarem mais imunes ás grandes pressões que se sabe existirem nestes concursos internacionais?

SC- Mais imunes... Diria menos corrompidos! São jovens e ainda não estão tão instalados como os velhos.

AT- A mim pareceu-me que o concorrente russo...

SC- Inteiramente de acordo! Noutro concurso não passaria da primeira eliminatória.

AT- Mas a mim pareceu-me possuir uma técnica sólida. Aquela sonata de Scriabin de ontem...

SC- Qual o pianista português que não faz um brilharete com as obras de Lopes Graca? Para os russos, tocar Scriabin já nasce com eles. Qualquer crianca de 9 anos tocaria como aquele concorrente.

AT- Que no entanto pareceu-me ter uma técnica mais sólida que a que ficou em 5° lugar...

SC- Näo diga isso! Ouviu-o tocar os estudos de Chopin? Não merecia ter passado da primeira eliminatória. Não lhe vou dar uma aula agora mas o "touché" da concorrente a que se refere não tem nada que ver com a falta dele que o concorrente russo revelou e que ficou em 6° lugar!

AT- Não o ouvi nos estudos de Chopin mas de facto no concerto para piano pareceu-me ter uma técnica demasiado percutiva para um compositor como Chopin que utiliza grandes linhas em "legatto".

SC- Esse concorrente pode fazer um brilharete com Stravinsky. Nunca com os clássicos.

AT- Stravinsky que é um grande compositor...

SC- Não. O grande compositor do século vinte, o que "abriu as portas" é Schoenberg!

AT- O Stravinsky também. Noutros aspectos...

SC- Para si! Agora vá-se embora que já estou na conversa consigo há muito tempo e estão ali à minha espera.